Recado do morro - parte IV

Muito além do Signo

Guimarães Rosa dá o nome de planetas aos personagens e aos lugares, entretanto vai muito além de uma simples nomenclatura. Na viagem de Pedro Orósio ou Pê-boi, em vários momentos, o escritor descreve a jornada do herói e, a relação dele com o recado que o morro traz, através de uma visível oposição entre casa dois e casa oito. Pedro Orósio é o homem da terra, autônomo, com seus próprios valores, forte e trabalhador. O Recado do Morro desestabiliza a todos e é destinado a Pedro Orósio, destinado a transformá-lo. O recado é de morte/ transformação do seu ego.

Além disso, Pedro Orósio está fazendo, também,a sua viagem para o interior, em direção ao passado, ao país natal e à infância. O que nos dá motivo para pensar que, além da oposição entre a casa dois e casa oito , há um trígono entre a casa quatro(8) e a casa oito.

O herói da narrativa está na sua jornada, também, contatando com as suas memórias, pois está re-vendo, re-sentindo os seus Gerais. E, é só assim, que o Recado do morro começa, lentamente, a penetrá-lo, porque penetrar em alguém tão ligado à terra, à casa dois e aos seus próprios valores, leva algum tempo, resistência que pode ser vista no início do conto:

E voltou à mente o querer se deixar lá, em seus Gerais, não havia de faltar onde plantar à meia, uma terreola; era um bom pressentimento. Mas logo a idéia raleou e se dispersou - ele não tinha passado por estreitez de dissabor ou sofrimento nenhum, capaz de impor saudades. Assim, era como se minguasse terra, para dar sustento àquela sementezinha.(p.52).

Pedro Orósio não tinha, então, sido iniciado ainda no plano dos sentimentos. Não tinha passado por nenhuma dor que provocasse uma morte/transformação em seu ego. A viagem para dentro de si estava, ainda, no plano da matéria. O Morro das Garças/Graças entra na narrativa fazendo papel oposto ao seu, mas ao mesmo tempo complementando-o, pois é a ele que se destina o recado.

Ao projetarmos numa mandala os vinte e nove graus nordeste apontados pelo Malaquias, o primeiro a transmitir o recado do morro, podemos concluir que o Morro é, realmente, análogo à casa oito. Além disso, há outras descrições do Morro que nos levam a essa conclusão:

“H´hum... Que é que o morro não tem preceito de estar gritando... Avisando de coisas” – disse por fim, se persignando e rebenzendo, e apontando com o dedo no rumo magnético de vinte e nove graus nordeste. (9)

Lá - estava o Morro da Garça: solitário, escaleno e escuro, feito uma pirâmide (...) “Possível ter havido alguma coisa?” –frei Sinfrão perguntava.- “Essas serras gemem, roncam, às vezes, com retumbo de longe trovão, o chão treme, se sacode. Serão descarregamentos subterrâneos, o desabar profundo de camadas calcáreas, como nos terremotos de Bom-Sucesso... Dizem que isso acontece mais é por volta da lua –cheia...”.(p.39)

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