Recado do morro - parte IV
Muito além do Signo
Guimarães Rosa dá o nome de planetas aos personagens e aos lugares, entretanto vai muito além de uma simples nomenclatura. Na viagem de Pedro Orósio ou Pê-boi, em vários momentos, o escritor descreve a jornada do herói e, a relação dele com o recado que o morro traz, através de uma visível oposição entre casa dois e casa oito. Pedro Orósio é o homem da terra, autônomo, com seus próprios valores, forte e trabalhador. O Recado do Morro desestabiliza a todos e é destinado a Pedro Orósio, destinado a transformá-lo. O recado é de morte/ transformação do seu ego.
Além disso, Pedro Orósio está fazendo, também,a sua viagem para o interior, em direção ao passado, ao país natal e à infância. O que nos dá motivo para pensar que, além da oposição entre a casa dois e casa oito , há um trígono entre a casa quatro(8) e a casa oito.
O herói da narrativa está na sua jornada, também, contatando com as suas memórias, pois está re-vendo, re-sentindo os seus Gerais. E, é só assim, que o Recado do morro começa, lentamente, a penetrá-lo, porque penetrar em alguém tão ligado à terra, à casa dois e aos seus próprios valores, leva algum tempo, resistência que pode ser vista no início do conto:
E voltou à mente o querer se deixar lá,
Pedro Orósio não tinha, então, sido iniciado ainda no plano dos sentimentos. Não tinha passado por nenhuma dor que provocasse uma morte/transformação em seu ego. A viagem para dentro de si estava, ainda, no plano da matéria. O Morro das Garças/Graças entra na narrativa fazendo papel oposto ao seu, mas ao mesmo tempo complementando-o, pois é a ele que se destina o recado.
Ao projetarmos numa mandala os vinte e nove graus nordeste apontados pelo Malaquias, o primeiro a transmitir o recado do morro, podemos concluir que o Morro é, realmente, análogo à casa oito. Além disso, há outras descrições do Morro que nos levam a essa conclusão:
“H´hum... Que é que o morro não tem preceito de estar gritando... Avisando de coisas” – disse por fim, se persignando e rebenzendo, e apontando com o dedo no rumo magnético de vinte e nove graus nordeste. (9)
Lá - estava o Morro da Garça: solitário, escaleno e escuro, feito uma pirâmide (...) “Possível ter havido alguma coisa?” –frei Sinfrão perguntava.- “Essas serras gemem, roncam, às vezes, com retumbo de longe trovão, o chão treme, se sacode. Serão descarregamentos subterrâneos, o desabar profundo de camadas calcáreas, como nos terremotos de Bom-Sucesso... Dizem que isso acontece mais é por volta da lua –cheia...”.(p.39)
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