Recado do morro - parte III

Pedro Orósio, por ser o guiador, representa o movimento na narrativa e, por conseqüência, o planeta Mercúrio. Além do mais, os motivos da viagem são mercuriais: Pedro Orósio é o guia da comitiva; Seo Alquiste quer fotografar e catalogar essa região dos Campos Gerais, que vai de Cordisburgo a Maquiné, e levar as informações para o seu país; Frei Sinfrão quer promover o culto; Seo Jujuca do Açude quer arrendar terras, comprar e vender bois, enfim, fazer negócio; e o Ivo Crônico cujo motivo, além de trabalhar e ganhar seu sustento tangenciando os burros cargueiros, é matar Pedro Orósio juntamente com os outros companheiros. A razão para quererem matá-lo é para se vingarem dele, pois Pedro Orósio roubou, somente por divertimento, a moça que o Ivo Crônico gostava.

Pedro era ainda teimoso(4) e solteiro, e maior bandoleiro namorador: as moças todas mais gostavam dele do que de qualquer outro; por abuso disso, vivia tirando as namoradas, atravessava e tomava a que bem quisesse,(5), só por divertimento de indecisão. Tal modo que muitos homem e os rapazes lhe tinham ódio queriam o fim dele, se não se atreviam a pegá-lo era por sensatez de medo, por ele ser turuna e primão em força, feito um touro ou uma montanha.(p.32)(6)

(...) Com freqüência, Pedro Orósio tirava do bolso um espelhinho redondo: se supria de se mirar, vaidoso da constância de seu rosto (...) Tinha medo de ninguém, assim descarecia de fígado ou peso na cabeça para guardar rancor (...) o agradável sossego simples das coisas, rendia até preguiça(7) pensar em brigar (...) (p.33)

Temos, então, integrando a comitiva, toda a simbologia de Mercúrio: o guia, o coletor das informações que vão ser transmitidas, o mediador da palavra divina, o negociante e comprador e, por último, o lado negativo de Mercúrio: o ciúmes, a mentira, a traição.

A viagem do Herói e a sua Simbologia

É sabido que a linguagem astrológica se manifesta através de um código que evoca símbolos e, como símbolo, representam qualidades complexas. Essas qualidades podem ser positivas ou negativas. Na maioria das vezes, trazem essas duas qualidades compreendidas num todo, como se tivesse que existir o mal para o fortalecimento do bem. É aí que entram os companheiros de Pedro Orósio evocando essa imagem negativa do código. Na verdade, através deles, Pedro Orósio, toma consciência do negativo numa inspiração súbita (Mercúrio) que antes foi bastante ruminada (Touro).

Seus companheiros , como já foi dito, querem matá-lo por ciúmes, pois ele rouba todas as moças (Mercúrio no seu aspecto negativo é associado aos ladrões, aos ladinos).

Portanto, é através deles que Pedro Orósio entra em contato com o seu lado negativo. No entanto, Pedro Orósio é um homem bom. Na verdade, ele tem tanto de bom quanto de mal e os seus companheiros fazem com que ele tenha de se haver com o seu lado negativo. A partir disso, Pedro Orósio então se transforma ao entrar em contato, nessa viagem para o interior, com todos os seus aspectos.

Entretanto, antes de sofrer as mudanças da sua jornada, Pedro Orósio é, segundo a narrativa, o estereótipo do taurino que não gosta de brigar, que gosta do descanso e, é forte como um touro e, sendo regido por Vênus, é dotado de beleza e faz sucesso com as moças.

Como o touro, Pedro Orósio gosta também de trabalhar, um trabalho continuado para depois poder descansar. “E Pedro Orósio não podia parar quieto. O estatuto de seu corpo requeria sempre movimentos: tinha de estar trabalhando, ou caminhando ou caçando como se divertir (...)”. E como quem não gosta de pensar muito nas coisas, principalmente nas más, pois o touro gosta mesmo é de trabalhar para ter boa vida, Pedro Orósio acha que o recado que o morro traz, através do Malaquias são “(...) Maluqueiras (...)”. (p.51)

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