Antônio Francisco

Antônio Francisco

Antônio Francisco Teixeira de Melo, poeta e xilógrafo, nascido em Mossoró-RN, aos 21 de outubro de 1949.

Filho de Francisco Petronilo de Melo e Pedra Teixeira de Melo. Bacharel em História, pela UERN, é compositor e ainda trabalha confeccionando placas.

Apresenta uma produção de trinta folhetos já publicados e é autor de dois livros: Dez Cordéis num Cordel Só e Por Motivos de Versos.

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Dez cordéis nun só cordel

Antônio Francisco

Antônio Francisco diz ter sido imortalizado mais uma vez

Mayara Amorim
Da Redação

Soldado, soldador e sapateiro. Essas foram algumas das principais profissões do poeta popular e cordelista mossoroense Antônio Francisco, que ocupa a cadeira número 15, que foi de Patativa do Assaré, na Academia Brasileira de Literatura de Cordel (ABLC). O poeta afirmou que após passar três dias internado em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI), o ato de ter sido imortalizado pela ABLC não mudou sua vida.

No dia 15 deste mês, Antônio seguiu em caravana com diversos outros mossorenses envolvidos com a cultura local para ser empossado na capital fluminense na ABLC. Ele disse que ficou emocionado ao chegar na cidade e lembrar de seu irmão Nazareno que foi morto no Rio de Janeiro e quase enterrado como indigente.

"Ele era o meu irmão mais próximo. Esse foi o maior peso da viagem para mim. Ele saiu de casa muito novo e viveu a vida como sempre quis", lembra o poeta. Recordando fatos, Antônio se disse um privilegiado por ter vivido a década de 60 em Mossoró e ter presenciado uma cidade limpa, podendo até se beber água diretamente no tio.

O poeta disse que o contato que ele terá com a ABLC será em alguns eventos pelo Brasil. "Quando tiver uma solenidade eles me chamam e eu vou lá mostrar meu trabalho", explica. Antônio Francisco disse estar tranqüilo com o título. "Eles me elegeram pelo que fiz e não pelo que poderei fazer! Isso me tranqüiliza por não me dar uma obrigação nem um compromisso", afirma.

Como discurso de posse na ABLC, Antônio Francisco fez o que mais sabe, recitou o cordel "De calça curta e chinela", que conta o sentimento do poeta e o percurso de seu trabalho. "Quem vai sentar na cadeira/ Não é você, arigó/É 'Por Motivos de Versos'/ 'Dez Cordéis num cordel só', Uma banda do Nordeste/ E o povo de Mossoró", trecho do cordel.

Poeta fala da emoção de ter livro na lista do vestibular da Uern

Antônio Francisco disse que Mossoró ainda vai o fazer infartar. Ele afirma que ficou sabendo pelos jornais que o livro "Dez Cordéis num Cordel Só" havia sido indicado para o vestibular da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte e quase o matou de felicidade.

"A primeira escola que adotou o meu livro foi o Dom Bosco. E para mim foi uma alegria enorme. Agora a UERN. Espero que esse seja um começo. Temos muitos artistas bons e precisamos valorizar o que é da terra", desabafa.

O poeta agradeceu aos amigos que o acompanharam na caravana ao Rio de Janeiro, à prefeitura e a Petrobras pelo apoio conseguido para ser empossado na Academia. "Todo que a ABLC fez foi assinar em baixo do que Mossoró já havia feito por mim. Me considero um privilegiado", conclui.

De calça curta e chinelo

Discurso de posse de Antônio Francisco na Academia Brasileira de Cordel

Eu já sonhei galopando

Num cavalo colorido

Pescando em cima das nuvens

Tucunaré já cozido

Mas nunca tinha sonhado

Que eu já tinha morrido.

E foi no ano passado

Que eu tive um sonho assim

Morto de papo pra cima

Numa cama de capim

Com três anjos recitando

E cantando perto de mim.

Cada um dos anjos tinha

O nome no seu coeiro

Cantador Marcos Lucena

Cordelista e violeiro

Vate Gonçalo Ferreira

Poeta Manoel Monteiro.

Mesmo morto como estava

ouvi um deles dizer

Eu acho que já é hora

Deste poeta escolher

Onde quer nascer de novo

E o que ele quer ser.

E me tiraram da cama

Pegados na minha mão

E me levaram pra dentro

De um enorme salão

Me mandaram sentar

Na frente de um telão.

E começaram a passar

Com arte e suavidade

Todos recantos da terra

País, Estados e cidades

Com tudo, tudo que tinham

Em cada comunidade.

O anjo Marcos Lucena

Disse batendo na tela

Poeta escolha a cidade

Que você quer nascer nela

Crescer junto com seu povo

E morrer nos braços dela.

Abri a boca e fechei

Como quem matuta só

E mesmo com a língua presa

Com se tivesse um nó

Respondi quero nascer

Novamente em Mossoró.

O anjo Manoel Monteiro

Bateu em mim e sorriu

E disse: você agora

Vai ver o que nunca viu

Os maiores cordelistas

E que a luz do céu cobriu.

E num cantinho da tela

Começou a aparecer

Os retratos dos poetas

Que estavam pra nascer

E depois da foto a fama

Que cada um ia ter.

O anjo Gonçalo disse:

Cantador escolha aquele

Cordelista que você

Mais se afina com ele

E diga se quer ou não

Renascer no canto dele.

Eu disse anjo Gonçalo

Não pense que eu sou arisco

Mas se eu nascer cem vezes

Todas cem eu me arrisco

Sem me arrepender de uma

De ser Antônio Francisco.

Quero ser neto de Perto

Filho de Chico e Pedrinha

Ser criado por titia

E Maria prima minha

E crescer correndo perto

Do rancho que a gente tinha.

Quero quebrar minha vela

Na primeira comunhão

Pegar balde no Mercado

Malota na Estação

E jogar como eu jogava

Bola, peteca e pião.

Eu quero sentir a mesma

Pancada de emoção

Quando eu li com oito anos

Um cordel de Lampião

E recitei pra papai

Juvenal e o dragão.

Quero correr com o vento

Por dentro da capoeira

De calça curta e chinela

Armado de baladeira

E enganar o sol quente

De baixo da quixabeira.

Eu quero bater tijolo

Ser servente de pedreiro

Abrir letreiro na rua

Trabalhar de sapateiro

E encostar nos quarenta

Trabalhando de plaqueiro.

Eu quero ser um pouquinho

De cigano e de poeta

Um tico de cantador

Outro tico de atleta

E conhecer quase todo

Nordeste de bicicleta.

Eu quero viver de novo

Com Nira de Rafael

Pra ela encontrar de novo

O lugar que tem o mel

E lambuzar de garapa

as páginas do meu cordel.

Nesse instante o anjo Marcos

Bateu a asa e subiu

Desceu e disse você

Com certeza não ouviu

Mas nosso Mestre aceitou

Tudo que você pediu.

Mas antes que você nasça

De novo como nasceu

E viva do mesmo jeito

Que no passado viveu

Recite alguns poemas

Que Patativa escreveu.

Eu disse eu sei de tudo

Deste poeta matuto

Que nasceu pra defender

O povo do sertão bruto

E passar por este mundo

Sem deixar substituto.

A terra pode fazer

Mais de uma tentativa

Rodar na ponta do eixo

De ficar na carne viva

Mas ela se quebra e não sai

Outro igual a Patativa.

Comecei recitando

"Vaca Estrela" e "Boi Fubá"

"Cabocla da minha terra"

"Minha Terra Natura"

"Prefeitura sem Prefeito"

"Cante lá que eu canto cá".

Recitei "Nordeste Sim,

Mas nordestinado não"

"A escrava do dinheiro"

"O doutor do avião"

"As proezas de Sabino"

E "O retrato do sertão".

Eu ia passar do tempo

De nascer só recitando

Poemas de Patativa

Com os três anjos me olhando

Quando acordei de repente

Com a mulher me chamando.

Acorda, preguiça acorda

Gustavo está aí fora

Ele, Ceiça e Mariana

Já faz mais de uma hora

Dizendo que você é

Da Academia agora.

Acorda, preguiça, acorda

Bata palma e diga viva

Foi na ABLC

Numa cadeira cativa

Lá no Rio de Janeiro

No lado de Patativa.

Eu disse morto de sono

Viva a loucura, viva!

É ela a dona dos sonhos

Da arte que nos cativa

Sem ela ninguém mistura

Pateta com Patativa.

E já refeito do sono

Que mandei Gustavo entrar

Eu disse: Gustavo, diga,

A Gonçalo pra arranjar

Um que tenha mais juízo

Pra sentar no meu lugar.

Diga lá que eu tenho medo

De dormir naquela cama

Não dela, mas dos que só

Aprenderam jogar lama

Das pedradas de inveja

Que dão nas costas da fama.

Gustavo Luz disse:

Poeta deixe de auê

Você vai pra Academia

E eu vou dizer porque

Todo mundo está vibrando

Torcendo por você.

Quem vai sentar na cadeira

Não é você, arigó.

É "Por Motivo de Versos"

"Dez cordel num cordel só",

Uma banda do Nordeste

E o povo de Mossoró.

Eu disse: pronto, Gustavo,

Você já me convenceu

Mas não vou sentar no banco

De meu confrade escolheu

Porque um gênio não morre

Patativa não morreu.

Eu vou sentar com cuidado

Na pontinha da cadeira

E agradecer a Deus

A Academia inteira

Ao grande Marcos Lucena

E a Gonçalo Ferreira.

E dizer a Patativa

Meu ídolo, mestre e xará,

Poeta, faça bonito

Aí do lado de lá

Que eu vou ver o que faço,

Aqui do lado de cá.

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