Poeta Antônio Francisco – O Patativa de Mossor

Poeta Antônio Francisco – O Patativa de Mossoró

27/07/2003

“Siga esta trilha/ com o nome de Liberdade./ Logo mais tem uma placa/ Que indica Felicidade.../ Vá por onde a seta indica/ Que chegará na cidade”.

Antônio Francisco

O poeta Antônio Francisco Teixeira de Melo chegou até este mundo pelas mãos da Deusa Poesia no dia 21 de outubro de 1949. Tem como pais Chico de Peta e Pedrinha (até o nome de seus genitores dão uma boa rima de amor). Como berço, a cidade de Santa Luzia de Mossoró. Sua poesia tem jeito de luz – farol a alumiar nossas injustiças, a clarear nossos tortuosos caminhos.

Homem do povo, coração criado no caldo bom de nossa rica e bela cultura nordestina. Sua vida foi repleta de causos e do prazenteiro aconchego popular. Exemplo vivo da verdadeira, e pura, bondade humana.

Conheci Antonio Francisco num recital em homenagem ao poeta popular Eliseu Ventania. Era Dia da Poesia e vários artistas potiguares resolveram saudar esta data, afixando o busto de Eliseu na Estação das Artes em Mossoró. Estávamos naquela fase burocrática dos discursos e das saudações protocolares de praxe. Discurso vai, discurso vem... E a monotonia, tal sombra sonífera, já ameaçava o evento. De repente, chega Antônio. Baixinho, jeito simples e bom, sorriso de flor de mandacaru nos lábios caboclos. Achega-se, sorri para todos e... Um santo poeta resolve pedir para ele brindar a data com um de seus cordéis. Bendita idéia! Antônio pega da palavra, limpa a garganta e, qual um menestrel redivivo, brada seus versos naquela estação. O silêncio se fez respeitoso para que não perdêssemos nenhuma de suas estrofes maravilhosas.

“Quando eu parei na cidade,/ Parei em frente a um galpão/ Todo murado de pedra,/ Na frente um grande portão/ Com um letreiro escrito em cima:/ “Hospital do Coração”./ (...) Aqui se encontram internados/ Os que sofrem de ingratidão,/ De egoísmo e inveja,/ Rocio, ódio e ambição,/ Cobiça e outros males/ Que envenenam o coração.”

Silêncio reverenciador na face de todos. Poeta não pede silêncio. Solta seus versos e a atenção se faz presente.

Antônio continuava, recitava e teatralizava seus versos. Cancioneiro competente, artista emocionado de sua obra. Teatro das sagas nordestinas.

“Infeliz do jacaré/ Que o bicho homem vê ele/ Porque, além de matá-lo/ E comer a carne dele,/ Faz um sapato do couro/ Pra ficar pisando nele. (...) – Sou de um planeta/ Que só vive em pé de guerra,/ Onde fabricam doenças,/ Onde a justiça mais erra.../ Uma gaiola de loucos/ Com o nome ‘Planeta Terra’.”

Discretamente, fui me apertando por entre a platéia para ver de perto aquele “Patativa de Mossoró”. Dou cada vez mais razão a um poeta das bandas de Natal, quando ouvindo um sarau com poetas mossoroenses, juntou suas coisas, abotoou o bisaco e disse: “Vou-me embora. Ô terra difícil para ser poeta é Mossoró! Graças a Deus que não sou de lá. Com essas ferras, não seria ouvido por nenhuma alma penada”. Foi-se e acho que, até hoje, anda meio acabrunhado com os seus versos pernetas. Voltemos ao nosso menestrel. Antônio declamou mais dois e todos aplaudiram emocionados, silentes e pedindo mais. Tive a honra de assistir a obra prima do cordel nordestino. Triste com o fim do evento, cuidei de entabular uma rápida conversa com o trovador. E, honrosamente, constatei: o homem é melhor do que sua obra. Passei a conhecer a maravilhosa figura humana. Ícone da bondade, símbolo do divino. Simplicidade e riso em estado puro.

Lívido, desci as escadas da Estação e, desenfreado, corri para a exposição de cordéis. Saí de braços com seu magnífico livro: “Dez Cordéis Num Cordel Só”. Chegando em casa, cuidei de tirar os sapatos, colocar minha alpargata de couro, desafrochei as calças, armei minha rede cearense e entreguei-me aos cordéis deste Patativa.

Peguei aquele “Sonho”, sorvi com ele “A Dose de Amor”. Puxei “O Guarda Chuva de Prata”, seus versos eram como “As Seis Moedas de Ouro”. Compreendi este mundo “Do Outro Lado do Véu”, cada rima “A Oitava Maravilha”. Ao me ver na frente de "Os Setes Constituintes”, vi que este homem era “O Feiticeiro do Sal” da nova poesia. Não é “História de Pescador” não. Foi este homem que escapou das trevas das nossas amargas letras dentro de um barco de bondade: “A Arca de Noé”.

Enquanto houver poetas como este, a poesia vive. Palmas para o menestrel Antônio Francisco! O Patativa de Mossoró!

Livro: Dez Cordéis Num Cordel Só
Autor: Antonio Francisco
Coleção Mossoroense
Investimento: R$ 10,00

Esta coluna é publicada aos domingos no Caderno Universo do Jornal O Mossoroense

Comentários

Postagens mais visitadas