Antonio Francisco - Literatura de cordel

O Poeta Antônio Francisco

Clotilde Tavares

Neste dia 14 de março, quinta-feira que passou, foi comemorado o Dia da Poesia. E a quem interessar possa, a data não é internacional, como foi anunciado por alguns. O Dia da Poesia é uma invenção brasileira e se refere à data de nascimento do poeta Antônio Frederico de Castro Alves, que, no dia 14 de março de 1847, viu a luz na cidade de Cabeceiras, no interior da Bahia.

Em Natal, há uma tradição de comemorar esse dia que data de alguns anos. Na década de 1980, lembro de grandiosas celebrações, quando fazíamos uma gigantesca passeata poética puxada a carro de som pelas ruas do centro, terminando em algum barzinho da Cidade Alta com recitais e uma grande farra. Ébrios de poesia, encharcados de álcool, celebramos muito as nossas musas e musos e a lembrança dessas comemorações é uma das mais agradáveis de uma fase da minha vida. Então, nesta semana que passou a cidade comemorou o Dia da Poesia, como o faz todo ano, com uma diversidade de eventos, tantos que nem dá para registrar todos. Entre estes, no entanto, eu quero destacar a sessão de abertura do Seminário de Antropologia da UFRN onde brilhou, como estrela da maior magnitude, o poeta Antônio Francisco, em boa hora trazido de Mossoró pela organização do evento e sob a proteção da professora Juli Cavignac, esta francesa-potiguarina que tem feito pela nossa cultura popular muito mais do que muita gente nascida aqui.

Pois bem: o poeta Antônio Francisco é a prova viva de que a poesia popular não está morta, nem precisa ser resgatada de lugar nenhum. Ela está aí, brilhando nos olhos daquela platéia formada quase que exclusivamente de jovens que se emocionaram e aplaudiram o poeta de pé. Depois que Antônio Francisco recitou “Os Animais Têm Razão”, “Meu Sonho” e outros poemas, os depoimentos se sucederam, todo mundo queria falar, e o poeta foi cercado por pedidos de autógrafos dos seus folhetos.

Antônio Francisco é um poeta cuja história é peculiar, uma vez que, apesar de ter cinqüenta e dois anos de idade, começou a publicar folhetos de cordel há pouco tempo, embora tenha se criado no meio da poesia. Ele conta como, quando menino, lia folhetos de cordel para aqueles que não sabiam ler, e durante a leitura incluía versos que ele próprio fazia, ainda criança. Curiosamente, resolveu assumir oficialmente a condição de poeta há apenas dois anos, e é como se uma represa de inspiração, há tanto tempo armazenada, de repente se rompesse sob o impacto de um poderoso cataclisma. A poesia que jorra da mente desse homem simples, divertido e simpático é algo que merece análise, estudo e reflexão por parte dos que constroem o saber acadêmico acerca da cultura popular. Dono de um rico imaginário, povoado de metáforas sobre a condição humana, seus poemas nos levam a outras paragens de onde, distanciados, podemos observar esta nossa vida errada e desastrada neste planeta, a destruir a natureza, a semear o desentendimento, a não praticar o amor. A despeito disso, os seus poemas sempre são concluídos com uma nota límpida e clara de esperança, nos fazendo acreditar que esse mundo velho sem porteira, mesmo todo errado e troncho, ainda tem jeito.

Mas o bom mesmo é relaxar e ouvir Antônio Francisco quando ele diz: “Quem já passou no sertão/E viu o solo rachado/A caatinga cor de cinza/Duvido não ter parado/Pra ficar olhando o verde/Do juazeiro copado./E sair dali pensando/Como pode a natureza/Num clima tão quente e seco/Numa terra indefesa/Com tanta adversidade/Criar tamanha beleza./Nos seus galhos se agasalham/Do periquito ao cancão/É o hotel de retirante/Que anda de pé no chão/O general da caatinga/E o vigia do sertão.”
E viva a Poesia!

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