Recado do morro - parte II
O Recado infra-lógico do Morro
No conto “O recado do morro” está evidente essa imagem de centro e circunferência, ligada, especificamente, à metafísica astrológica. Nele, temos a representação da terra como o centro e os seus viajantes/dançarinos como a circunferência que se move. A metafísica astrológica do conto pode ser vista, através do seu texto, no nome dos personagens e nas suas ações e, também, no nome dos lugares/ fazendas, ambos tendo correspondência com a astrologia. O Recado do Morro é a quarta novela que constitui o Corpo de Baile, e o enredo traz a todo o momento personagens que vivem à margem do mundo racional. Esses “videntes privilegiados” são os únicos capazes de irem, um a um, decifrando o recado inaudível que o morro traz. É através dos loucos, do místico, da criança e do artista trazidos no conto pelos personagens Guegue, Coletor, Nominedômine, Joãozezim e Laudelim Pulgapé que o lado racional da narrativa entra em contato com o recado que o morro traz.
Em cada um dos sete contos que compõem o Corpo de Baile, há o predomínio de um planeta astrológico. São sete novelas ao total e,
Na primeira edição de Corpo de Baile, em dois volumes, o Recado do Morro, curiosamente ou intencionalmente, situava-se no centro das novelas.
1) Campo Geral – conto que privilegia o Sol .
2) Uma estória de amor - Júpiter.
3) A Estória de Lélio e Lina - Marte.
4) O Recado do Morro – Terra e Mercúrio.
5) Dão-Lalalão – Vênus.
6) O Cara-de- Bronze - Saturno.
7) Buriti - Lua.
Nesta novela, Guimarães Rosa usa da linguagem astrológica para nos contar a história de um grupo de viajantes/dançarinos que se movem em circunferência em torno do Morro das Garças, representado como o centro, como a Terra.
O multifacetado Mercúrio
Guiados pelo enxadeiro Pedro Orósio, que é quem inicia o movimento, além de ser o guiador da comitiva, o grupo vai fazer um movimento de ida e de volta por sete fazendas, cada uma com o nome de um planeta astrológico.
Aos quais, sol a sol e val a val, mapeados por modos e caminhos tortuosos, nas principais tinham sido, rol: a do Jove, entre o Ribeirão Maquiné e o Rio das Pedras - fazenda com espaço de casarão e sobrefartura: a dona Vininha, aprazível, ao pé da Serra do Boiadeiro - aí Pedro Orósio principiou namoro com uma rapariga de muito quilate, por seus escolhidos olhos e sua fina alvura; o Nhô Hermes, à beira do córrego da capivara – onde acharam compra de cinqüenta novilhos curraleiros; a Nhá Selena, na ponta da Serra de Santa Rita - onde teve uma festinha e frei Sinfrão disse duas missas, confessou mais de dúzia de pessoas: o Marciano, na fralda da Serra do Repartimento, seu contraforte de mais cabo, mediando na cabeceira do Córrego da Onça para a do córrego do Medo – lá o Pedro Orósio quase teve de aceitar ajuizada briga com um campeiro morro-vermelhano; e, assaz, passado o São Francisco, o Apolinário na vertente do Formoso – ali já eram os campos –gerais, dentro do Sol.(p.53)
Comentários