Recado do morro - parte I

A Metafísica Astrológica
Daniela Scheifler » 13/11/2004
O recado infra-lógico de João Guimarães Rosa
“Todos os meus livros são simples tentativas de rodear e devassar um pouquinho o mistério cósmico, esta coisa movente, impossível, perturbadora e rebelde a qualquer lógica, que é chamada realidade, que é a gente mesmo, o mundo, a vida. Antes o absurdo que o óbvio, que o frouxo. Toda a lógica contém inevitável dose de mistificação. Toda mistificação contém boa dose de inevitável verdade.”
Guimarães Rosa
Para desvelar o universo extraordinário criado por Guimarães Rosa, é preciso que adentremos o mistério cósmico ao qual ele se refere. Esse mistério que nos ronda, que todos nós sentimos e que Rosa traz à tona através da geografia do sertão e da bronca alma do sertanejo que, indiferente ao raciocínio lógico, é acessível a toda espécie de impulsos vagos, sonhos, premonições, crendices e que vive distante da nossa civilização urbana e niveladora. São almas receptivas ao extraordinário, ao milagre, e são elas que decifram O Recado do Morro, um dos sete contos do Corpo de Baile.
Em Correspondência com o Tradutor Italiano, Rosa diz que o Corpo de Baile foi praticamente todo escrito em “efervescência de caos, trabalho quase mediúnico e elaboração subconsciente”, e, que depois do livro pronto e publicado, achou muitas coisas nele que haviam surgido por si mesmas, “milagrosamente”.(1)
A importância que Rosa dava à metafísica é evidente, primeiro pelo seu engajamento maçônico, segundo, pela sua biblioteca que foi conservada no Instituto de Estudos Brasileiros da Universidade de São Paulo e, terceiro, por entrevistas que concedeu a jornalistas e críticos em pelo menos três ocasiões onde se manifestou longamente sobre sua obra. Como maçom, João Guimarães Rosa buscava dar às suas obras a palavra depurada(2), na qual, o artista poderia elaborá-la a partir da língua portuguesa. A preocupação que ele tinha com a palavra era a de extrair dela a Pedra Filosofal. Em sua biblioteca conservada pelo Instituto citado acima(3), Rosa possuía inúmeros títulos que remetem ao metafísico-religioso e que misturam obras ocidentais com orientais, além de inúmeras ligadas à alquimia. Obras como os livros sagrados do hinduísmo, a Bíblia, Paracelso e Van Helmont, Rilke, Dostoievski, duas edições do Alcorão, Imitação de Jesus Cristo que era livro de cabeceira desse autor, O livro dos Espíritos de Allan kardec, Corpus Hermeticum - atribuído a Hermes Trismegisto - e mais outros inúmeros títulos que não deixam dúvida da preocupação metafísica de João Guimarães Rosa.
Numa epígrafe tirada de Plotino presente em Manuelzão e Miguilim - e que Rosa citará no discurso de recepção na academia - propõe uma imagem do uno em sua relação com o múltiplo: “Num círculo, o centro é naturalmente imóvel; mas se a circunferência também o fosse, não seria ela também um centro imenso”. Essa citação de Guimarães Rosa nos remete, além de muitas outras obras, à religiões e filosofias nas quais estão presentes essa imagem do uno e, também neste estudo.
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