Manuel Bandeira

Libertinagem

(Manuel Bandeira )

Vida noves fora zero


Célia A. N. Passoni

Devido às constantes insistências de Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos, Manuel Bandeira escreve Itinerário de Pasárgada, depoimento autobiográfico incluindo seu roteiro poético. Sou natural do Recife, mas na verdade nasci para a vida consciente em Petrópolis, pois de Petrópolis datam as minhas mais velhas reminiscências.

Em breve o poeta identificaria essas “velhas reminiscências” com a profunda emoção que brota da saudade de ter sido criança, de ter simplesmente vivido; e do acúmulo de lembranças nasce a experiência artística, identificada também como emoção.

Desde esse momento, posso dizer que havia descoberto o segredo da poesia, o segredo do meu itinerário em poesia verifiquei ainda que o conteúdo emocional daquelas reminiscências da primeira meninice era o mesmo de certos raros momentos em minha vida de adulto: num e noutro caso alguma coisa que resiste à análise da inteligência e da memória consciente, e que me enche de sobressalto ou me força a uma atitude de apaixonada escuta.

Confessa ainda que seus primeiros contatos com a poesia datam do mais fundo de sua memória, quando na companhia paterna ia-me eu embebendo dessa idéia que a poesia está em tudo - tanto nos amores como nos chinelos, tanto nas coisas lógicas como nas disparatadas.

Da primeira infância guarda impressões poéticas, sobretudo de Viagem à Roda do Mundo numa Casquinha de Noz, adquirindo aí a noção de haver uma realidade mais bela, diferente da realidade cotidiana, e a página do macaco tirando cocos para os meninos despertou o meu primeiro desejo de evasão. No fundo, já era Pasárgada que se prenunciava.

Aos seis anos, muda-se para o Recife, onde permanecerá quatro anos e, nesse tempo, construiu-se a minha mitologia, e digo mitologia porque os seus tipos, um Totônio Rodrigues, uma D. Aninha Viegas, a preta Tomásia, velha cozinheira da casa de meu avô Costa Ribeiro, têm para mim a mesma consistência heróica das personagens dos poe­mas homéricos. A Rua da União, com os quatro quarteirões adja­centes limitados pelas ruas da Aurora, da Saudade, Formosa e Princesa Isabel, foi a minha Tróada; a casa de meu avô, a capital desse país fabuloso. Quando comparo esses quatro anos de minha meninice a quaisquer outros quatro anos de minha vida de adul­to, fico espantado do vazio destes últimos em cotejo com a densi­dade daquela quadra distante.

De volta ao Rio, cursa o colégio Pedro II e mora nas Laranjeiras, onde toma contato com o “realismo da gente do povo”, o vendeiro, o açougueiro, o quitandeiro, o padeiro, os moleques de rua. A essa in­fluência da fala popular contrapõe-se a formação do ginásio, voltada para o conhecimento do idioma e os primeiros contatos com os clássicos.

Escrevia versos, mas se escrevia versos, era com o mesmo espírito desportivo com que me equilibrava sobre um barril lançado a toda a força das pernas, o que de modo nenhum me fazia sentir com vocação para artista de circo.

Destinava-se, por influência do pai, à Arquitetura e, por isso, partiu para São Paulo, onde ia matricular-me no curso de engenheiro-arquiteto da Escola Politécnica. Pensava que a idade dos versos estava definitiva­mente encerrada. Ia começar para mim outra vida. Começou de fato, mas durou pouco. No fim do ano letivo adoeci e tive de aban­donar os estudos, sem saber que seria para sempre. Sem saber que os versos, que eu fizera em menino por divertimento, principiaria então a fazê-los por necessidade, por fatalidade.

De 1904, ano em que adoeceu, a 1917, quando publicou Cinza das Horas, confessa: Foi nesses treze anos que tomei consciência de minhas limitações, nesses treze anos que formei a minha técnica. Técnica resultante não do esforço consciente, mas do transe ou alumbramento que era a poesia a fluir do subconsciente. Tomei consciência de que era um poeta menor; que me estaria para sempre fechado o mundo das grandes abstrações gene­rosas; que não havia em mim aquela espécie de cadinho onde, pelo calor do sentimento, as emoções morais se transmudam em emoções estéticas: o metal precioso eu teria que sacá-lo a duras penas, ou melhor, a duras esperas, do pobre minério das minhas pequenas dores e ainda menores alegrias. Mas ao mesmo tempo compreendi (...) que em literatura a poesia está nas palavras, se faz com palavras e não com idéias e sentimentos, muito embora, bem entendido, seja pela força do sentimento ou pela tensão do espírito que acodem ao poeta as combinações de palavras onde há carga de poesia.

Inicialmente, Manuel Bandeira constrói seus poemas com versos metrificados. A passagem para o verso livre é difícil, precisando aos poucos ir-se acostumando a ele No verso livre autêntico o metro deve estar de tal modo esquecido que o alexandrino mais ortodoxo funcione dentro dele sem a virtude de verso medido.

Atinge sua plenitude em 1921, mas antes afirma: Não me lembro de problemas dentro da metrificação, que eu não tivesse resolvido prontamente. No entanto os primeiros versos do poema “Gesso”, que é em versos livres, me deram água pela barba durante anos. Originalmente me saíram assim:

Aquela estatuazinha de gesso, quando ma deram, era nova

E o gesso muito branco e as linhas muito puras

Mal sugeriam imagem de vida.

Não era possível manter aquele “ma deram” tão avesso ao gênio da fala brasileira. Além disso, o verso soava pesado e desgracioso. Só em 1924, acertei com a solução:

Esta estatuazinha de gesso, quando nova

- O gesso muito branco, as linhas muito puras —

- mal sugeria imagem de vida

Um número fixo de sílabas com as suas pausas cria um certo movimento rítmico, mas não é forçoso ficar no mesmo metro para manter o ritmo. Quando atentei nisso, senti-me verdadeira­mente liberto da tirania métrica. Há, na produção de Bandeira, além das influências literárias, as extra literárias como a música e o desenho. Além da influência recebida, o autor escreve letras para músicas de Villa-Lobos, Francisco Mignone, Jaime Ovalle, Lourenzo Fernandez, entre outros - todos de primeira plana no cenário da moderna música brasileira.

Em 1917 publica Cinza das Horas, contendo uma seleção de poemas ligados pela tonalidade dos sentimentos. Publiquei o livro, ainda que sem intenção de começar carreira literária: desejava apenas dar-me a ilusão de não viver inteira­mente ocioso. Não fiz grande distribuição do folheto, senão entre parentes e amigos. E um dos motivos foi que, tendo mandado um exemplar a Bilac, não recebi nenhuma resposta. Logo após sai Carnaval e, sob pretexto de que no Carnaval tudo é possível, não há unidade. O livro contém poemas escritos de várias datas, inserindo o ruidoso “Sapos”, sátira dirigida contra alguns poetas parnasianos.

Naturalmente a sátira dos “Sapos” estava a calhar como número de combate e, com efeito, por ocasião da Semana de Arte Moderna, três anos depois, foi o meu poema bravamente declamado no Teatro Municipal de São Paulo pela voz de Ronald de Carvalho sob os apupos, os assobios, a gritaria de “foi não foi” da maioria do público, adversa ao movimento. O contato com o grupo modernista se faz ao longo do tempo, através, principalmente, de Ribeiro Couto, Mário de Andrade, Ronald de Carvalho e outros. Admite que a influência do Modernismo lhe foi importante. Pouco me deve o movimento; o que eu devo a ele é enorme. Não só por intermédio dele vim a tomar conhecimento da arte de vanguarda na Europa (da literatura e também das artes plásticas e da música), como me vi sempre estimulado pela aura de simpatia que me vinha do grupo paulista.

Com a morte do pai e sua transferência para o morro do Curvelo, o poeta confessa-se mais maduro. Quando meu pai era vivo, a morte ou o que quer que me pudesse acontecer não me preocupava, porque eu sabia que pondo a minha mão na sua, nada haveria que eu não tivesse a coragem de enfrentar. Sem ele eu me sentia definitivamente só. E era só que teria de enfrentar a pobreza e a morte.

Nesse período (1920-1933), escreve três livros de poesias - O Ritmo Dissoluto, Libertinagem e Estrela da Manhã — e um de prosa — Crônicas da Província do Brasil O Ritmo Dissoluto (1924) é editado pela Revista da Língua Portuguesa. Causou grande e divertida surpresa nos arraiais modernistas aparecer eu, autor de um poema já publicado (“Poética”), onde primitivamente havia este verso: Abaixo a Revista da Língua Portuguesa, aparecer eu da noite para o dia editado por essa mesma revista. (...) É verdade que o verso irreverente foi suprimido, mas para ser substituído pelo que lá está:

Abaixo os puristas!

O livro apresenta-se como elemento de transição para a maturidade poética. Versos livres e metrificados encontram-se harmoniosa­mente como para deixarem rolar os sentimentos e idéias do autor. Mas a liberdade de movimentos surge e atinge o auge em Libertinagem, contendo poemas escritos entre 1924 e 1930, anos de força e calor do movimento modernista. Empolgado pela libertação, escreve aí alguns de seus mais famosos poemas, destacando-se “Dialeto Brasileiro”, paródias como de Bocage, Castro Alves, Macedo, entre outros.

“Traduzi” para moderno o famoso soneto de Bocage que co­meça pelo Se é doce no recente, ameno estio. Eram assim os quartetos:

Doçura de, no estio recente

Ver a manhã toucar-se de flores

E o rio

mole

queixoso

Deslizar, lambendo areias e verduras;

Doçura de ouvir as aves

Em desafio de amores

cantos

risadas

Na ramagem do pomar sombrio.

Como se vê, eu estava mas era assinalando maliciosamente certas maneiras de dizer, certas disposições tipográficas que já se tinham tornado clichês modernistas.

ou ainda do autor de A Moreninha que, no original, é:

Mulher, irmã, escuta—me: não ames.

Quando a teus pés um homem terno e curvo

Jurar amor, chorar pranto de sangue.

Não creias, não, mulher: ele te engana!

As lágrimas são galas da mentira

E o juramento manto da perfídia.

e que na “tradução” ficou:

Teresa, se algum sujeito bancar o sentimental em cima de você

E te jurar uma paixão do tamanho de um bonde

Se ele chorar

Se ele se ajoelhar

Se ele se rasgar todo

Não acredita não Teresa

É lágrima de cinema

É tapeação

Mentira

Cai fora.

Estrela da Manhã e Lira dos Cinqüenta Anos contêm poesias de diferentes épocas, desde o morro do Curvelo até os feitos no quarto em Moraes e Vale, rua no centro da Lapa. A tristeza dessa mudança exprimi-a numa quadra sibilina intitulada “O Amor, a Poesia, as Viagens”. E um poema ininteligível nos seus elementos, porque só eu possuo a chave que o explica; mas que a explicação não é necessária para que pessoas dotadas de sensibilidade poética penetrem a intenção essencial dos versos, se prova pelo comentário da nossa grande Cecília Meirelles, que os qualificou de “pura lágrima”. Aproveito a ocasião para jurar que jamais fiz um poema ou verso ininteligível para me fingir de profundo sob a especiosa capa de hermetismo. Só não fui claro quando não pude — fosse por deficiência ou impropriedade de linguagem, fosse por discrição.

Em 1940, concorre a uma cadeira na ABL, e Eleito, me vi em apuros para escrever o elogio do meu antecessor, cuja obra jamais me havia atraído. Do patrono, Júlio Ri­beiro, conhecia A Carne, lida na adolescência, e a fama de gramático. A edição de suas Poesias Completas ainda inclui outros volumes: Belo Belo, Opus 10 e Estrela da Tarde. A editora José Olympio publicou-os com o título de Estrela da Vida Inteira.

Ao encerrar o Itinerário de Pasárgada, Manuel Bandeira faz uma breve e melancólica retrospectiva, assentando que o convívio com a idéia de morte é repousante, fazendo dela a sua companheira e im­buindo a poesia de profundo sentimento de solidão.

Olhemos agora para trás. Quando caí doente em 1904, fi­quei certo de morrer dentro de pouco tempo: a tuberculose era ainda a “moléstia que não perdoa”. Mas fui vivendo, morre-não-morre, e em 1914 o Dr. Bodmer, médico-chefe do sanatório de Clavadel, tendo-lhe eu perguntado quantos anos me restariam de vida me respondeu assim: O Sr. tem lesões teoricamente incompatíveis com a vida; no entanto está sem bacilos, come bem, dorme bem, não apresenta, em suma, nenhum sintoma alarmante. Pode viver cinco, dez, quinze anos... Quem poderá dizer?. Continuei esperando a morte para qualquer momento, vi­vendo sempre como que provisoriamente. Nos primeiros anos da doença me amargurava muito a idéia de morrer sem ter feito nada; depois a forçada ociosidade. Já disse como publiquei A Cinza das Horas para de certo modo iludir o meu sentimento de vazia inutilidade. Este só começou a se dissipar quando fui to­mando consciência da ação dos meus versas sobre amigos e principalmente sobre desconhecidos. Uma tarde voltei para casa seriamente impressionado de ter ouvido, na Livraria José Olímpio, Raquel de Queirós me dizer:

Você não sabe o que a sua poesia representa para nós. Foi a força de testemunhos como esse, às vezes de gente quase de todo alheia à literatura, que principiei a aceitar sem amargura o meu destino. Hoje na verdade me sinto em paz com ele e pronto para o que der e vier.

Otto Maria Carpeaux, escrevendo uma vez a meu respeito, disse, com certeira intuição, que no livro ideal em que ele estruturaria a ordem da minha poesia, esta partia da vida inteira que poderia ter sido e que não foi para outra vida que viera ficando cada vez mais cheia de tudo.

De fato esse é o sentido profundo da “Canção do vento e da minha vida”. De fato cheguei ao apaziguamento das minhas in­satisfações e das minhas revoltas pela descoberta de ter levado à angústia de muitos uma palavra fraterna. Agora a morte pode vir — essa morte que espero desde os dezoito anos; tenho a impressão que ela encontrará, como em “Consoada” está dito,

....................a casa limpa,

A mesa posta,

Com cada coisa em seu lugar.

Em outubro de 1968 a morte levou o poeta que conhecia a arte de criar versos.

LIBERTINAGEM

O volume contém 38 pequenos poemas representativos de diferentes momentos da vida poética do autor, mas que podem ser agrupa­dos devido a uma recorrência a certos tipos de tema. Inicia o volume o poema “Não Sei Dançar”, em que o poeta se embebe de uma alegria ilusória e passageira para tentar fugir de sua triste sina:

Sim, já perdi pai, mãe, irmãos.

Perdi a saúde também.

E por isso que sinto como ninguém o ritmo do jazz-band.

A referência musical deixa transparecer a cadência que será constante em sua obra: o ritmo poético como pano de fundo para o relato do que existe de mais interior e essencialmente biográfico do poeta.

­Segue-se “Anjo da Guarda”, singela homenagem que o poeta faz à irmã morta.

Na mesma linha autobiográfica, Manuel Bandeira redige “Pneumotórax”, em que trata a própria doença (tuberculose) com irreverência, traduzida com frases cortantes, vazadas com o humor que beira o sarcástico:

— O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.

— Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?

— Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

Em “Porquinho da Índia”, “Andorinha”, “O Último Poema”, a ca­racterização autobiográfica é conduzida para recordações da infância, sempre tratada com melancólica proximidade; são relatadas as reminiscências mais longínquas do poeta, que refletem a amargura de perceber-se contemplando o final de uma vida poética:

Assim eu quereria o meu último poema

Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos

[intencionais

Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas

Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume

A pureza da chama em que se consomem os diamantes

[mais límpidos

A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

Caracteriza a poesia de Manuel Bandeira a forma simples e singela de repassar para o leitor o tom pessoal, o envolvimento sentimental, a amargura e a melancolia; transmite a sensação de uma vida vazia, muito bem definida em alguns versos como “A vida inteira que podia ter sido e que não foi” (“Pneumotórax”), ou nos quartetos de “Poe­ma de Finados”, em que a sensação de morte que o poeta experimenta está associada à sensação de perda dos parentes próximos:

Amanhã é dia dos mortos

Vai ao cemitério. Vai

E procura entre as sepulturas

A sepultura de meu pai.

Leva três rosas bem bonitas.

Ajoelha e reza uma oração.

Não pelo pai, mas pelo filho:

O filho tem mais precisão.

O que resta de mim na vida

E a amargura do que sofri.

Pois nada quero, nada espero.

E em verdade estou morto ali.

Qual é então o refúgio do poeta? A ele resta fugir, com o bom sentimentalismo herdado dos românticos, para um mundo criado pela sua imaginação. Embora modernista, Manuel Bandeira aproxima-se da cosmovisão romântica não só pelo caráter pessoal, melancólico e sentimental de sua poesia, como também pela simplicidade da composição alicerçada na busca do verso melódico e popular, com preferência pelos redondilhos maiores, tão bem ilustrados por “Vou-me Embora pra Pasárgada”, como se vê nas estrofes transcritas a seguir:

E como farei ginástica

Andarei de bicicleta

Montarei em burro brabo

Subirei no pau-de-sebo

Tornarei banhos de mar!

E quando estiver cansado

Deito na beira do rio

Mando chamar a mãe-d’água

Pra me contar as histórias

Que no tempo de eu menino

Rosa vinha me contar

Vou-me embora pra Pasárgada

E quando eu estiver mais triste

Mas triste de não ter jeito

Quando de noite me der

Vontade de me matar

— Lá sou amigo do rei —Terei a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada.

O mesmo comportamento poético é notado em versos extrema­mente líricos como em “Profundamente”, em que são confundidos os tempos em função da emotividade. Aí surgem os avós, a saudade do passado identificada pelas vozes de um tempo remoto, encarcerados na memória dos seus seis anos. Dessa evocação surgem personagens como Totônio Rodrigues, Rosa, Tomásia.

Quando eu tinha seis anos

Não pude ver o fim da festa de São João

Porque adormeci

Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo

Minha avó

Meu avô

Totônio Rodrigues

Tomásia

Rosa

Onde estão todos eles?

— Estão todos dormindo

Estão todos deitados

Dormindo

Profundamente.

Uma segunda linha poética a ser apontada em Libertinagem é realçada pela atenção que o poeta dá às coisas que podem ser captadas pela observação. Voltando-se para o cotidiano, preocupa-se em provar que a poesia nasce do encontro do poeta com o mundo em que vive. A poesia nasce a qualquer momento, do contato com as praças públicas ou com os homens nas ruas, da vivência brasileira, do jeitão nosso de ser. Como apregoavam os modernistas, a poesia nasce a qualquer mo­mento, é concebida pelo encontro com situações mais diversas do coti­diano. A beleza se esconde nos fatos mais banais, a ternura está nas coisas mais simples, como são exemplos “Pensão Familiar”, “Major”, “Poema Tirado de uma Notícia de Jornal”, “Namorados” e “Camelôs”, de onde se extraiu o trecho a seguir.

Abençoado seja o camelô dos brinquedos de tostão:

O que vende balõezinhos de cor

O macaquinho que trepa no coqueiro

O cachorrinho que bate com o rabo

Os homenzinhos que jogam box

A perereca verde que de repente dá um pulo que engraçado

E as canetinhas-tinteiro que jamais escreverão coisa alguma

Alegria das calçadas.

Em poemas mais intelectualizados como “O Cacto”, associa a uma aparente simplicidade um trabalho que envolve conceitos e conhecimentos da história da arte e da mitologia, até se envolver na dura realidade do seco Nordeste, evocado a partir de sua árvore-símbolo. Ao cacto, que submerge ao impacto da também grande e agressiva imagem do tufão, mistura-se a ferocidade do turbilhão da cidade, como se o cacto pudesse por si só provar a força da paisagem áspera e intratável do Nordeste:

Aquele cacto lembrava os gestos desesperados da estatuária:

Laocoonte constrangido pelas serpentes,

Ugolino e os filhos esfaimados.

Evocava também o seco Nordeste, carnaubais, caatingas...

Era enorme, mesmo para esta terra de ferocidades

excepcionais.

Um dia um tufão furibundo abateu-o pela raiz.

O cacto tombou atravessado na rua,

Quebrou os beirais do casario fronteiro,

Impediu o trânsito de bondes, automóveis, carroças,

Arrebentou os cabos elétricos e durante vinte e quatro horas

[privou a cidade de iluminação e energia:

— Era belo, áspero, intratável.

Outra vertente temática que aparece em Libertinagem é a com­posição de versos que expõem o compromisso do escritor com a estética modernista. Nesse sentido, produz uma espécie de profissão de fé em “Poética”, reduzindo sua pretensão poética ao compromisso de buscar liberdade de criação:

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais

Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção

Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis

Quero antes o lirismo dos loucos

O lirismo dos bêbedos

O lirismo difícil e pungente dos bêbedos

O lirismo dos clowns de Shakespeare

Encerra o poema o famoso verso “— Não quero mais saber do lirismo que não é libertação” — desabafo de um oprimido que diz não ao formalismo parnasiano, à linguagem culta, ao lirismo come­dido e se propõe a buscar uma língua brasileira, o ritmo livre, o tema aberto.

Essa mesma língua brasileira é proposta em “Evocação do Recife”:

E o vendedor de roletes de cana

O de amendoim

que se chamava midubim e não era torrado era cozido

Me lembro de todos os pregões

Ovos frescos e baratos

Dez ovos por uma pataca

Foi há tanto tempo...

A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros

Vinha da boca do povo na língua errada do povo

Língua certa do povo

Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil

Ao passo que nós

O que fazemos

É macaquear

A sintaxe lusíada

Ainda em “Evocação do Recife” é possível perceber o apego do poeta em relação à paisagem que está próxima, quer pela saudade (no caso do Recife), quer pela proximidade física, como em “Mangue”:

Mangue mais Veneza americana do que o Recife

Cargueiros atracados nas docas do Canal Grande

O Morro do Pinto morre de espanto

Passam estivadores de torso nu suando facas de ponta

Café baixo

Trapiches alfandegados

Catraias de abacaxis e de bananas

A Light fazendo crusvaldina com resíduos de coque

Ou ainda em “Belém do Pará”:

(...) Belém do Pará onde as avenidas se chamam Estradas:

Estrada de São Jerônimo

Estrada de Nazaré

Onde a banal Avenida Marechal Deodoro da Fonseca de

[todas as cidades do Brasil

Se chama liricamente

Brasileiramente

Estrada do Generalíssimo Deodoro

Bembelelém

Viva Belém

Nortista gostosa

Eu te quero bem.


QUADRO DE ALGUMAS CARACTERÍSTICAS DOS POEMAS DE LIBERTINAGEM

1

Não Sei Dançar

autobiografia, melancolia e consciência da miscigenação

2

O Anjo da Guarda

memorialismo, lirismo e evasão

3

Mulheres

a poesia do cotidiano, evocação da infância e leve erotismo

4

Pensão Familiar

A poesia do cotidiano e leve ironia

5

Camelôs

A poesia do cotidiano, evasão e evocação da infância

6

O Cacto

A poesia do cotidiano, mitologia, metalinguagem e reflexão

7

Pneumotórax

Autobiografia, humor, melancolia e antirilismo

8

Comentário Musical

A poesia do cotidiano e epifania

9

Poética

Metalinguagem, a busca da estética e a força de um manifesto

10

Chambre Vide

A poesia do cotidiano e reflexão

11

Bonheur Lyrique

Autobiografia, melancolia e lirismo

12

Porquinho-da-Índia

Evocação da Infância, lirismo, leve ironia e epifania

13

Mangue

Memorialismo, aspectos da cultura brasileira e lirismo

14

Belém do Pará

Memorialismo, lirismo e exaltação da pátria

15

Evocação Recife

Memorialismo, lirismo, autobiografia e exaltação da pátria

16

Poema Tirado de uma Notícia do Jornal

A poesia do cotidiano, observação e ironia

17

Teresa

Ironia, lirismo, epifania e intertextualidade

18

Lenda Brasileira

Mitologia, epifania, humor e evasão

19

A Virgem Maria

Autobiografia, epifania, evasão e morte

20

Oração do Saco de Magaratiba

Autobiografia e melancolia

21

O Major

A poesia do cotidiano e morte

22

Cunhatã

A poesia do cotidiano, lirismo e aspectos do Brasil

23

Oração a Teresinha do Menino Jesus

Autobiografia, melancolia e evasão

24

Andorinha

Autobiografia, pessimismo e ironia

25

Profundamente

Metalinguagem, memorialismo, lirismo e morte

26

Madrigal Tão Engraçadinho

Ironia, a poesia do cotidiano, autobiografia e intertextualidade

27

Noturno da Parada Amorim

Epifania e evasão

28

Na boca

Autobiografia e pessimismo

29

Macumba de Pai Zé

Evasão, morte e aspectos do Brasil

30

Noturno da Rua da Lapa

Autobiografia, melancolia, epifania e experimentalismo

31

Cabedelo

Evasão, melancolia, lirismo e intertextualidade

32

Irene no Céu

Evasão, humor e aspectos do Brasil

33

Palinódia

Epifania, ludismo e experimentalismo

34

Namorados

Coloquialismo, ironia e bom humor

35

Vou-me Embora pra Pasárgada

Evasão, metalinguagem, epifania, lirismo e autobiografia

36

O Impossível Carinho

Metalinguagem, evasão, lirismo e evocação da infância

37

Poema de Finados

Autobiografia, evasão, pessimismo e morte

38

O Último Poema

Autobiografia, evasão, morte, metalinguagem e melancolia


Libertinagem

Manuel Bandeira

01) Não sei dançar

02) O anjo da guarda

03) Mulheres

04) Pensão familiar

05) Camelôs

06) O Cacto

07) Pneumotórax

08) Comentário Musical

09) Poética

10) Chambre vide

11) Bonheur lyrique

12) Porquinho-da-índia

13) Mangue

14) Belém do Pará

15) Evocação do Recife

16) Poema tirado de uma notícia de jornal

17) Teresa

18) Lenda brasileira

19) A Virgem Maria

20) Oração no saco de mangaratiba

21) O Major

22) Cunhantã

23) Oração a Teresinha do menino Jesus

24) Andorinha

25) Profundamente

26) Madrigal tão engraçadinho

27) Noturno da parada amorim

28) Na Boca

29) Macumba do pai Zusé

30) Noturno da Rua da Lapa

31) Cabedelo

32) Irene no céu

33) Palinódia

34) Namorados

35) Vou-me embora pra Pasárgada

36) O impossível carinho

37) Poema de finados

38) O último poema

NÃO SEI DANÇAR

Uns tomam éter, outros cocaína.

Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria.

Tenho todos os motivos menos um de ser triste.

Mas o cálculo das probabilidades é uma pilhéria...

Abaixo Amiel!

E nunca lerei o diário de Maria Bashkirtseff.

Sim, já perdi pai, mãe, irmãos.

Perdi a saúde também.

É por isso que eu sinto como ninguém o ritmo do jazz-band.

Uns tomam éter, outros cocaína.

Eu tomo alegria!

Eis aí por que vim assistir a este baile de terça-feira gorda.

Mistura muito excelente de chás...

Esta foi açafata...

- Não, foi arrumadeira.

E está dançando com o ex- prefeito municipal:

Tão Brasil!

De fato este salão de sangues misturados parece o Brasil...

Há até a fração incipiente amarela

Na figura de um japonês.

O japonês também dança maxixe:

Acugêlê banzai!

A filha do usineiro de Campos

Olha com repugnância

Pra crioula imoral.

No entanto o que faz a indecência da outra

É dengue nos olhos maravilhosos da moça.

E aquele cair de ombros...

Mas ela não sabe...

Tão Brasil!

Ninguém se lembra de política...

Nem dos oito mil quilômetros de costa...

O algodão de Seridó é o melhor do mundo?... Que me

[importa?

Não há malária nem moléstia de Chagas nem ancilós-

[tomos.

A sereia sibila e o ganzá do jazz-band batuca.

Eu tomo alegria!

Petrópolis, 1925

O ANJO DA GUARDA

Quando minha irmã morreu,

(Devia ter sido assim)

Um anjo moreno, violento e bom,

- brasileiro

Veio ficar ao pé de mim.

O meu anjo da guarda sorriu

E voltou pra junto do Senhor.

MULHERES

Como as mulheres são lindas!

Inútil pensar que é do vestido...

E depois não há só as bonitas:

Há também as simpáticas.

E as feias, certas feias em cujos olhos eu vejo isto:

Uma menininha que é batida e pisada e nunca sai da cozinha.

Como deve ser bom gostar de uma feia!

O meu amor porém não tem bondade alguma,

É fraco! fraco!

Meu Deus, eu amo como as criancinhas...

És linda como uma história da carochinha...

E eu preciso de ti como precisava de mamãe e papai

(No tempo em que pensava que os ladrões moravam no

[morro atrás de casa e tinham cara de pau).

Pensão Familiar

Jardim da pensãozinha burguesa.

Gatos espapaçados ao sol.

A tiririca sitia os canteiros chatos.

O sol acaba de crestar as boninas que murcharam.

Os girassóis

amarelo!

resistem.

E as dálias, rechonchudas, plebéias, dominicais.

Um gatinho faz pipi.

Com gestos de garçom de restaurant-Palace

Encobre cuidadosamente a mijadinha.

Sai vibrando com elegância a patinha direita:

- É a única criatura fina na pensãozinha burguesa.

Petrópolis, 1925

CamelÔs

Abençoado seja o camelô dos brinquedos de tostão:

O que vende balõeszinhos de cor

O macaquinho que trepa no coqueiro

O cachorrinho que bate com o rabo

Os homenzinhos que jogam boxe

A perereca verde que de repente dá um pulo que engraçado

E as canetinhas-tinteiro que jamais escreverão coisa alguma.

Alegria das calçadas

Uns famam pelos cotovelos:

- "O cavalheiro chega em casa e diz: Meu filho, vai buscar

[um pedaço de banana para eu acender

[o charuto. Naturalmente o menindo pen-

[sará: Papai está malu..."

Outros, coitados, têm a língua atada.

Todos porém sabem mexer nos cordéis com o tino ingênuo

[de dimiurgos de inutilidades.

E ensinam no tumulto das ruas os mitos heróicos da meni-

[nice...

E dão aos homens que passam preocupados ou tristes uma

[lição de infância.

O CACTO

Aquele cacto lembrava os gestos desesperados de estatuária:

Laocoonte constrangido pelas serpentes,

Ugolino e os filhos esfaimados.

Evocava também o seco Nordeste, carnaubais, caatingas...

Era enorme, mesmo para esta terra de feracidades excep-

[cionais.

[cionais.

Um dia um tufão furibundo abateu-o pela raiz.

O cacto tombou atravessado na rua,

Quebrou os beirais do casario fronteiro,

Impediu o trânsito de bondes, automóveis, carroças,

Arrebentou os cabos elétricos e durante vinte e quatro horas

[privou a cidade de iluminação e energia:

- Era belo, áspero, intratável.

Petrópolis, 1925

Pneumotórax

Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.

A vida inteira que podia ter sido e que não foi.

Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:

- Diga trinta e três.

- Trinta e três... trinta e três... trinta e três...

- Respire.

.............................................................

- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o

[pulmão direito infiltrado.

- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?

- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

Comentário Musical

O meu quarto de dormir a cavaleiro da entrada da barra.

Entram por ele dentro

Os ares oceânicos,

Maresias atlânticas:

São Paulo de Luanda, Figueira da Foz, praias gaélicas da Ir-

[landa...

O comentário musical da paisagem só podia ser o sussurro

[sinfônico da vida civil.

No entanto o que ouço neste momento é um silvo agudo de

[sagüim:

Minha vizinha de baixo comprou um sagüim.

Poética

Estou farto do lirismo comedido

Do lirismo bem comportado

Do lirismo funcionário público com livro de ponto expe-

[diente protocolo e manifestações de apreço

[ao Sr. diretor

Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário

[o cunho vernáculo de um vocábulo

Abaixo os puristas

Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais

Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção

Todos os ritmos sobretudo os enumeráveis

Estou farto do lirismo namorador

Político

Raquítico

Sifilítco

Do lirismo que capitula ao que quer que seja for a de si

[mesmo.

De resto não é lirismo

Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante

[exemplar com cem modelos de cartas

[e as diferentes maneiras de agradar

[às mulheres, etc.

Quero antes o lirismo dos loucos

O lirismo dos bêbedos

O lirismo difícil e pungente dos bêbedos

O lirismo dos clowns de Shakespeare

- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.

Chambre Vide

Petit chat blanc et gris

Reste encore dans la chambre

La nuit est si noire dehors

Et le silence pèse

Ce soir je crains la nuit

Petit chat frère du silence

Reste encore

Reste auprès de moi

Petit chat blanc et gris

Petit chat

La nuit pèse

Il n'y a pas de papillons de nuit

Où sont donc ces bêtes?

Les mouches dorment sur le fil de l'électricité

Je suis trop seul vivant dans cette chambre

Petit chat frère du silence

Reste à mes côtés

Car il faut que je sente la vie auprès de moi

Et c'est toi qui fais que la chambre n'est pas vide

Petit chat blanc et gris

Reste dans la chambre

Eveillé minutieux et lucide

Petit chat blanc et gris

Petit chat.

Petrópolis, 1925

Bonheur Lyrique

Coeur de phtisique

O mon coeur lyrique

Ton bonheur ne peut pas être comme celui des autres

Il faut que tu te fabriques

Un bonheur unique

Un bonheur qui soit comme le piteus lustucru en chiffon

[d'une enfant pauvre

- Fait par elle-même.

Porquinho-da-Índia

Quando eu tinha seis anos

Ganhei um porquinho-da-índia.

Que dor de coração me dava

Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!

Levava ele pra sala

Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos

Ele não gostava:

Queria era estar debaixo do fogão.

Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas...

- O meu porquinho-da-índia foi minha primeira namo-

[rada.

Mangue

Mangue mais Veneza americana do que o Recife

Cargueiros atracados nas docas do Canal Grande

O Morro do Pinto morre de espanto

Passam estivadores de torso nu suando facas de ponta

Café baixo

Trapiches alfandegados

Catraias de abacaxis e de bananas

A Light fazendo crusvaldina com resíduos de coque

Há macumbas no piche

Eh cagira mia pai

Eh cagira

E o luar é uma coisa só

Houve tempo em que a Cidade Nova era mais subúrbio do

[que todas as Meritis da Baixada

Pátria amada idolatrada de empregadinhos de repartições

[públicas

Gente que vive porque é teimosa

Cartomantes da Rua Carmo Neto

Cirurgiões-dentistas com raízes gregas nas tabuletas avul-

[sivas

O Senador Eusébio e o Visconde de Itaúna já se olhavam

[com rancor

(Por isso

Entre os dois

Dom João VI plantou quatro renques de palmeiras impe-

[riais)

Casinhas tão térreas onde tantas vezes meu Deus fui funcio-

[nário público casado com mulher feia

[e morri de tuberculose pulmonar

Muitas palmeiras se suicidaram porque não viviam num pín-

[caro azulado.

Era aqui que choramingavam os primeiros choros dos carna-

[vais cariocas

Sambas da Tia Ciata

Cadê mais Tia Ciata

Tavez em Dona Clara meu branco

Ensaiando cheganças para o Natal

O menino Jesus - Quem sois tu?

O preto - Eu sou aquele preto principá do centro do

[cafange do fundo do rebolo. Quem sois tu?

O menino Jesus - Eu sou o fio da Virge Maria.

O preto - Entonces como é fio dessa senhora, obedeço.

O menino Jesus - Entonces cuma você obedece, reze

[aqui um terceto pr'esse exerço vê.

O Mangue era simplesinho

Mas as inundações dos solstícios de verão

Trouxeram para Mata-Porcos todas as uiaras da Serra da Ca-

[rioca

Uiaras do Trapicheiro

Do Maracanã

Do Rio Joana

E vieram também sereias de além-mar jogadas pela ressada

[nos aterrados da Gamboa

Hoje há transatlânticos atracados nas docas do Canal Grande

O Senador e o Visconde arranjaram capangas

Hoje se fala numa porção de ruas em que dantes ninguém

[acreditava

E há partidas para o Mangue

Com choros de cavaquinho, pandeiro e reco-reco

És mulher

És mulher e mais nada

OFERTA

Mangue mais Veneza americana do que o Recife

Meriti meretriz

Mange enfim verdadeiramente Cidade Nova

Com transatlânticos atracados nas docas do Canal Grande

Linda como Juiz de Fora.

Belém do Pará

Bembelelém

Viva Belém!

Belém do Pará porto moderno integrado na equatorial

Beleza eterna da paisagem

Bembelelém

Viva Belém!

Cidade pomar

(Obrigou a polícia a classificar um tipo novo de delinqüente:

O apedrejador de mangueiras.)

Bembelelém

Viva Belém!

Belém do Pará onde as avenidas se chamam Estradas:

Estrada de São Jerônimo

Estrada de Nazaré

Onde a banal Avenida Marechal Deodoro da Fonseca de to-

[das as cidades do Brasil

Se chama liricamente

Brasileiramente

Estrada do Generalíssimo Deodoro

Bembelelém

Viva Belém!

Nortista gostosa

Eu te quero bem.

Terra da castanha

Terra da borracha

Terra de bribá bacuri sapoti

Terra de fala cheia de nome indígena

Que a gente não sabe se é de fruta pé de pau ou ave de pluma-

[gem bonita.

Nortista gostosa

Eu te quero bem.

Me obrigarás a novas saudades

Nunca mais me esquecerei do teu Largo da Sé

Com a fé maciça das duas maravilhosas igrejas barrocas

E o renque ajoelhado de sobradinhos coloniais tão boniti-

[nhos

Nunca mais me esquecerei

Das velas encarnadas

Verdes

Azuis

Da doca de Ver-o-Peso

Nunca mais

E foi pra me consolar mais tarde

Que inventei esta cantiga:

Bembelelém

Viva Belém!

Nortista gostosa

Eu te quero bem.

Belém, 1928

Evocação do Recife

Recife

Não a Veneza americana

Não a Mauritsstad dos armadores das Índias Ocidentais

Não o Recife dos Mascates

Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois -

Recife das revoluções libertárias

Mas o Recife sem história nem literatura

Recife sem mais nada

Recife da minha infância

A Rua da União onde eu brincava de chicote-queimado e

[partia as vidraças da casa de Dona Aninha Viegas

Totônio Rodrigues era muito velho e botava o pincenê na

[ponta do nariz

Depois do jantar as famílias tomavam a calçada com cadei-

[ras, mexericos, namoros, risadas

A gente brincava no meio da rua

Os meninos gritavam:

Coelho sai!

Não sai!

A distância as vozes macias das meninas politonavam:

Roseira dá-me uma rosa

Craveiro dá-me um botão

(Dessas rosas muita rosa

Terá morrido em botão...)

De repente

nos longes da noite

um sino

Uma pessoa grande dizia:

Fogo em Santo Antônio!

Outra contrariava: São José!

Totônio Rodrigues achava sempre que era são José.

Os homens punham o chapéu saíam fumando

E eu tinha raiva de ser menino porque não podia ir ver o fogo.

Rua da União...

Como eram lindos os nomes das ruas da minha infância

Rua do Sol

(Tenho medo que hoje se chame do Dr. Fulano de Tal)

Atrás de casa ficava a Rua da Saudade...

...onde se ia fumar escondido

Do lado de lá era o cais da Rua da Aurora...

...onde se ia pescar escondido

Capiberibe

- Capibaribe

Lá longe o sertãozinho de Caxangá

Banheiros de palha

Um dia eu vi uma moça nuinha no banho

Fiquei parado o coração batendo

Ela se riu

Foi o meu primeiro alumbramento

Cheia! As cheias! Barro boi morto árvores destroços redo-

[moinho sumiu

E nos pegões da ponte do trem de ferro os caboclos destemi-

[dos em jangadas de bananeiras

Novenas

Cavalhadas

E eu me deitei no colo da menina e ela começou a passar a mão

[nos meus cabelos

Capiberibe

- Capibaribe

Rua da União onde todas as tardes passava a preta das bana-

[nas com o xale vistoso de pano da Costa

E o vendedor de roletes de cana

O de amendoim

que se chamava midubim e não era torrado era

[cozido

Me lembro de todos os pregões:

Ovos frescos e baratos

Dez ovos por uma pataca

Foi há muito tempo...

A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros

Vinha da boca do povo na língua errada do povo

Língua certa do povo

Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil

Ao passo que nós

O que fazemos

É macaquear

A sintaxe lusíada

A vida com uma porção de coisas que eu não entendia bem

Terras que não sabia onde ficavam

Recife...

Rua da União...

A casa de meu avô...

Nunca pensei que ela acabasse!

Tudo lá parecia impregnado de eternidade

Recife...

Meu avô morto.

Recife morto, Recife bom, Recife brasileiro como a casa de

[meu avô.

Rio, 1925

Poema Tirado de uma Notícia de Jornal

João Gostoso era carregador de feira livre e morava no mor-

[ro da Babilônia num barracão sem número.

Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro

Bebeu

Cantou

Dançou

Depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afo-

[gado.

Teresa

A primeira vez que vi Teresa

Achei que ela tinha pernas estúpidas

Achei também que a cara parecia uma perna

Quando vi Teresa de novo

Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do

[corpo

(Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o res-

[to do corpo nascesse)

Da terceira vez não vi mais nada

Os céus se misturaram com a terra

E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas.

Lenda Brasileira

A moita buliu. Bentinho Jararaca levou a arma à cara: o que

saiu do mato foi o Veado Branco! Bentinho ficou pregado no

chão. Quis puxar o gatilho e não pôde.

- Deus me perdoe!

Mas o Cussaruim veio vindo, veio vindo, parou junto do

caçador e começou a comer devagarinho o cano da espingarda.

A Virgem Maria

O oficial de registro civil, o coletor de impostos, o mordomo

[da Santa Casa e o administrador

[do cemitério de São João Batista

Cavaram com enxadas

Com pás

Com as unhas

Com os dentes

Cavaram uma voca mais funca que o meu suspiro de re-

[núnica

Depois me botaram lá dentro

E puseram por cima

As Tábuas da Lei

Mas de lá de dentro do fundo da treva do chão da cova

Eu ouvi a vozinha da Virgem Maria

Dizer que fazia sol lá fora

Dizer i n s i s t e n t e m e n t e

Que fazia sol lá fora.

Oração no saco de Mangaratiba

Nossa Senhora me dê paciência

Para estes mares para esta vida!

Me dê paciência para que eu não caia

Pra que eu não pare nesta existência

Tão mal cumprida tão mais comprida

Do que a restinga de Marambaia!...

1926

O Major

O major morreu.

Reformado.

Veterano da Guerra do Paraguai.

Herói da ponte do Itororó.

Não quis honras militares.

Não quis discursos.

Apenas

À hora do enterro

O corneteiro de um batalhão de linha

Deu à boca do túmulo

O toque de silêncio.

Cunhantã

Vinha do Pará.

Chamava Siquê.

Quatro anos. Escurinha. O riso gutural da raça.

Piá branca nenhuma corria mais do que ela.

Tinha uma cicatriz no meio da testa:

- Que foi isto, Siquê?

Com voz de detrás da garganta, a boquinha tuíra:

- Minha mãe (a madrasta) estava costurando

Disse vai ver se tem fogo

Eu soprei eu soprei eu soprei não vi fogo

Aí ela se levantou e esfregou com minha cabeça na brasa

Riu, riu, riu

Uêrêquitáua.

O ventilador era a coisa que roda.

Quando se machucava, dizia: Ai Zizus!

1927

Oração a Teresinha do Menino Jesus

Perdi o jeito de sofrer.

Ora essa.

Não sinto mais aquele gosto cabotino da tristeza.

Quero alegria! Me dá alegria,

Santa Teresa!

Santa Teresa não, Teresinha...

Teresinha... Teresinha...

Teresinha do Menino Jesus.

Me dá alegria!

Me dá a força de acreditar de novo

No

Pelo Sinal

Da Santa

Cruz!

Me dá alegria! Me dá alegria,

Santa Teresa!...

Santa Teresa não, Teresinha...

Teresinha do Menino Jesus.

Andorinha

Andorinha lá fora está dizendo:

- "Passei o dia à toa, à toa!"

Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste!

Passei a vida à toa, à toa...

Profundamente

Quando ontem adormeci

Na noite de São João

Havia alegria e rumor

Vozes cantigas e risos

Ao pé das fogueiras acesas.

No meio da noite despertei

Não ouvi mais vozes nem risos

Apenas balões

Passavam errantes

Silenciosamente

Apenas de vez em quando

O ruído de um bonde

Cortava o silêncio

Como um túnel.

Onde estavam os que há pouco

Dançavam

Cantavam

E riam

Ao pé das fogueiras acesas?

- Estavam todos dormindo

Estavam todos deitados

Dormindo

Profundamente

*

Quando eu tinha seis anos

Não pude ver o fim da festa de São João

Porque adormeci

Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo

Minha avó

Meu avô

Totônio Rodrigues

Tomásia

Rosa

Onde estão todos eles?

- Estão todos dormindo

Estão todos deitados

Dormindo

Profundamente.

Madrigal tão engraçadinho

Teresa, você é a coisa mais bonita que eu vi até hoje na minha

[vida, inclusive o porquinho-da-índia que

[me deram quando eu tinha seis anos.

Noturno da parada Amorim

O violoncelista estava a meio do Converto de Schumann

Subitamente o coronel ficou transportado e começou a gri-

[tar: - Je vois des anges! Je vois des anges!

[- E deixou-se escorregar sentado pela

[escada abaixo.

O telefone tilintou.

Alguém chamava?... Alguém pedia socorro?...

Mas do outro lado não vinha senão o rumor de um pranto

[desesperado!...

(Eram três horas.

Todas as agências postais estavam fechadas.

Dentro da noite a voz do coronel continuava a gritas: - Je

[vois des anges! Je vois des anges!)

Na Boca

Sempre tristíssimas estas cantigas de carnaval

Paixão

Ciúme

Dor daquilo que não se pode dizer

Felizmente existe o álcool na vida

E nos três dias de carnaval éter de lança-perfume

Quem me dera ser como o rapaz desvairado!

O ano passado ele parava diante das mulheres bonitas

E gritava pedindo o esguicho de cloretilo:

- Na boca! Na boca!

Umas davam-lhe as costas com repugnância.

Outras porém faziam-lhe a vontade.

Ainda existem mulheres bastante puras para fazer vontade

[aos viciados

Dorinha meu amor...

Se ela fosse bastante pura eu iria agora gritar-lhe como o ou-

[tro: - Na boca! Na boca!

Macumba do pai Zusé

Na macumba do encantado

Nego véio pai de santo fez mandinga

No palacete do Botafogo

Sangue de branca virou água

Foram vê estava morta!

NOTURNO DA RUA DA LAPA

A janela estava aberta. Para o que não sei, mas o que entrava era o vento dos lupanares, de mistura com o eco que se partia nas curvas cicloidais, e fragmentos do hino da bandeira.

Não posso atinar no que eu fazia: se meditava, se morria de espanto ou se vinha de muito longe.

Nesse momento (oh! po que precisamente nesse momento?...) é que penetrou no quarto o bicho que voava, o articulado implacável, implacável!

Compreendi desde logo não haver possibilidade alguma de evasão. Nascer de novo também não adiantava. - A bomba de flit! pensei comigo, é um inseto!

Quando o jacto fumigatório partiu, nada mudou em mim; os sinos da redenção continuaram em silêncio; nenhuma porta se abriu nem fechou. Mas o monstruoso animal FICOU MAIOR. Senti que ele não morreria nunca mais, nem sairia, conquanto não houvesse no aposento nenhum busto de Palas, nem na minhalma, o que é pior, a recordação persistente de alguma extinta Lenora.

CABEDELO

Viagem à roda do mundo

Numa casquinha de noz:

Estive em Cabedelo.

O macaco me ofereceu cocos.

Ó maninha, ó maninha,

Tu não estavas comigo!...

- Estavas?...

1907

Irene no Céu

Irene preta

Irene boa

Irene sempre de bom humor.

Imagino Irene entrando no céu:

- Licença, meu branco!

E São Pedro bonachão:

- Entra, Irene. Você não precisa pedir licença.

PALINÓDIA

Quem te chamara prima

Arruinaria em mim o conceito

De teologias velhíssimas

Todavia viscerais

Naquele inverno

Tomaste banhos de mar

Visitaste as igrejas

(Como se temesses morrer sem conhecê-las todas)

Tiraste retratos enormes

Telefonavas telefonavas...

Hoje em verdade te digo

QUe não és prima só

Senão prima de prima

Prima-dona de prima

- Primeva.

NAMORADOS

O rapaz chegou-se para junto da moça e disse:

- Antônia, ainda não me acostumei com o seu corpo, com

[a sua cara.

A moça olhou de lado e esperou.

- Você não sabe quando a gente é criança e de repente vê

[uma lagarta listada?

A moça se lembrava:

- A gente fica olhando...

A meninice brincou de novo nos olhos dela.

O rapaz prossegui com muita doçura:

- Antônia, você parece uma lagarta listada.

A moça arregalou os olhos, fez exclamações.

O rapaz concluiu:

- Antônia, você é engraçada! Você parece louca.

Vou me embora prá Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada

Lá sou amigo do rei

Lá tenho a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada

Aqui não sou feliz

Lá a existência é uma aventura

De tal modo inconseqüente

Que Joana a Louca de Espanha

Rainha e falsa demente

Vem a ser contraparente

Da nora que nunca tive

E como farei ginástica

Andarei de bicicleta

Montarei em burro bravo

Subirei no pau-de-sebo

Tomarei banhos de mar!

E quando estiver cansado

Deito na beira do rio

Mando chamar a mãe-d'água

Pra me contar histórias

Que no tempo de eu menino

Rosa vinha me contar

Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo

É outra civilização

Tem um processo seguro

De impedir a concepção

Tem telefone automático

Tem alcalóide à vontade

Tem prostitutas bonitas

Para gente namorar

E quando eu estiver mais triste

Mas triste de não ter jeito

Quando de noite me der

Vontade de me matar

- Lá sou amigo do rei -

Terei a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada.

O impossível carinho

Escuta, eu não quero contar-te meu desejo;

Quero apenas contar-te minha ternura;

Ah se em troca de tanta felicidade que me dás;

Eu te pudesse repor;

- Eu te soubesse repor -;

No coração despedaçado;

As mais puras alegrias de tua infância!

O último poema

Assim eu quereria o meu último poema.

Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos in-

[tencionais

Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas

Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume

A pureza da chama em que se consomem os diamantes mais

[límpidos

A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.

Comentários

Manuel Bandeira;

O batalhador

Considerado um dos maiores expoentes da poesia moderna brasileira, principalmente pela simplicidade do seu estilo, e abordagem dos aspectos do cotidiano, em particular, pela a luta a favor da sobrevivência, já que a morte foi uma constante em sua prolongada vida para os moldes da época, pois a tuberculose no qual foi vitimado causou muitas mortes.
Com certeza, so consegui isto, por ter um espírito vigoroso.
Professor de Literatura Brasileira do Colégio Efetivo.

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