Manuel Bandeira
Libertinagem
(Manuel Bandeira )
Vida noves fora zero
Célia A. N. Passoni
Devido às constantes insistências de Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos, Manuel Bandeira escreve Itinerário de Pasárgada, depoimento autobiográfico incluindo seu roteiro poético. Sou natural do Recife, mas na verdade nasci para a vida consciente em Petrópolis, pois de Petrópolis datam as minhas mais velhas reminiscências.
Em breve o poeta identificaria essas “velhas reminiscências” com a profunda emoção que brota da saudade de ter sido criança, de ter simplesmente vivido; e do acúmulo de lembranças nasce a experiência artística, identificada também como emoção.
Desde esse momento, posso dizer que havia descoberto o segredo da poesia, o segredo do meu itinerário em poesia verifiquei ainda que o conteúdo emocional daquelas reminiscências da primeira meninice era o mesmo de certos raros momentos em minha vida de adulto: num e noutro caso alguma coisa que resiste à análise da inteligência e da memória consciente, e que me enche de sobressalto ou me força a uma atitude de apaixonada escuta.
Confessa ainda que seus primeiros contatos com a poesia datam do mais fundo de sua memória, quando na companhia paterna ia-me eu embebendo dessa idéia que a poesia está em tudo - tanto nos amores como nos chinelos, tanto nas coisas lógicas como nas disparatadas.
Da primeira infância guarda impressões poéticas, sobretudo de Viagem à Roda do Mundo numa Casquinha de Noz, adquirindo aí a noção de haver uma realidade mais bela, diferente da realidade cotidiana, e a página do macaco tirando cocos para os meninos despertou o meu primeiro desejo de evasão. No fundo, já era Pasárgada que se prenunciava.
Aos seis anos, muda-se para o Recife, onde permanecerá quatro anos e, nesse tempo, construiu-se a minha mitologia, e digo mitologia porque os seus tipos, um Totônio Rodrigues, uma D. Aninha Viegas, a preta Tomásia, velha cozinheira da casa de meu avô Costa Ribeiro, têm para mim a mesma consistência heróica das personagens dos poemas homéricos. A Rua da União, com os quatro quarteirões adjacentes limitados pelas ruas da Aurora, da Saudade, Formosa e Princesa Isabel, foi a minha Tróada; a casa de meu avô, a capital desse país fabuloso. Quando comparo esses quatro anos de minha meninice a quaisquer outros quatro anos de minha vida de adulto, fico espantado do vazio destes últimos em cotejo com a densidade daquela quadra distante.
De volta ao Rio, cursa o colégio Pedro II e mora nas Laranjeiras, onde toma contato com o “realismo da gente do povo”, o vendeiro, o açougueiro, o quitandeiro, o padeiro, os moleques de rua. A essa influência da fala popular contrapõe-se a formação do ginásio, voltada para o conhecimento do idioma e os primeiros contatos com os clássicos.
Escrevia versos, mas se escrevia versos, era com o mesmo espírito desportivo com que me equilibrava sobre um barril lançado a toda a força das pernas, o que de modo nenhum me fazia sentir com vocação para artista de circo.
Destinava-se, por influência do pai, à Arquitetura e, por isso, partiu para São Paulo, onde ia matricular-me no curso de engenheiro-arquiteto da Escola Politécnica. Pensava que a idade dos versos estava definitivamente encerrada. Ia começar para mim outra vida. Começou de fato, mas durou pouco. No fim do ano letivo adoeci e tive de abandonar os estudos, sem saber que seria para sempre. Sem saber que os versos, que eu fizera em menino por divertimento, principiaria então a fazê-los por necessidade, por fatalidade.
De 1904, ano em que adoeceu, a 1917, quando publicou Cinza das Horas, confessa: Foi nesses treze anos que tomei consciência de minhas limitações, nesses treze anos que formei a minha técnica. Técnica resultante não do esforço consciente, mas do transe ou alumbramento que era a poesia a fluir do subconsciente. Tomei consciência de que era um poeta menor; que me estaria para sempre fechado o mundo das grandes abstrações generosas; que não havia em mim aquela espécie de cadinho onde, pelo calor do sentimento, as emoções morais se transmudam em emoções estéticas: o metal precioso eu teria que sacá-lo a duras penas, ou melhor, a duras esperas, do pobre minério das minhas pequenas dores e ainda menores alegrias. Mas ao mesmo tempo compreendi (...) que em literatura a poesia está nas palavras, se faz com palavras e não com idéias e sentimentos, muito embora, bem entendido, seja pela força do sentimento ou pela tensão do espírito que acodem ao poeta as combinações de palavras onde há carga de poesia.
Inicialmente, Manuel Bandeira constrói seus poemas com versos metrificados. A passagem para o verso livre é difícil, precisando aos poucos ir-se acostumando a ele No verso livre autêntico o metro deve estar de tal modo esquecido que o alexandrino mais ortodoxo funcione dentro dele sem a virtude de verso medido.
Atinge sua plenitude em 1921, mas antes afirma: Não me lembro de problemas dentro da metrificação, que eu não tivesse resolvido prontamente. No entanto os primeiros versos do poema “Gesso”, que é em versos livres, me deram água pela barba durante anos. Originalmente me saíram assim:
Aquela estatuazinha de gesso, quando ma deram, era nova
E o gesso muito branco e as linhas muito puras
Mal sugeriam imagem de vida.
Não era possível manter aquele “ma deram” tão avesso ao gênio da fala brasileira. Além disso, o verso soava pesado e desgracioso. Só em 1924, acertei com a solução:
Esta estatuazinha de gesso, quando nova
- O gesso muito branco, as linhas muito puras —
- mal sugeria imagem de vida
Um número fixo de sílabas com as suas pausas cria um certo movimento rítmico, mas não é forçoso ficar no mesmo metro para manter o ritmo. Quando atentei nisso, senti-me verdadeiramente liberto da tirania métrica. Há, na produção de Bandeira, além das influências literárias, as extra literárias como a música e o desenho. Além da influência recebida, o autor escreve letras para músicas de Villa-Lobos, Francisco Mignone, Jaime Ovalle, Lourenzo Fernandez, entre outros - todos de primeira plana no cenário da moderna música brasileira.
Em 1917 publica Cinza das Horas, contendo uma seleção de poemas ligados pela tonalidade dos sentimentos. Publiquei o livro, ainda que sem intenção de começar carreira literária: desejava apenas dar-me a ilusão de não viver inteiramente ocioso. Não fiz grande distribuição do folheto, senão entre parentes e amigos. E um dos motivos foi que, tendo mandado um exemplar a Bilac, não recebi nenhuma resposta. Logo após sai Carnaval e, sob pretexto de que no Carnaval tudo é possível, não há unidade. O livro contém poemas escritos de várias datas, inserindo o ruidoso “Sapos”, sátira dirigida contra alguns poetas parnasianos.
Naturalmente a sátira dos “Sapos” estava a calhar como número de combate e, com efeito, por ocasião da Semana de Arte Moderna, três anos depois, foi o meu poema bravamente declamado no Teatro Municipal de São Paulo pela voz de Ronald de Carvalho sob os apupos, os assobios, a gritaria de “foi não foi” da maioria do público, adversa ao movimento. O contato com o grupo modernista se faz ao longo do tempo, através, principalmente, de Ribeiro Couto, Mário de Andrade, Ronald de Carvalho e outros. Admite que a influência do Modernismo lhe foi importante. Pouco me deve o movimento; o que eu devo a ele é enorme. Não só por intermédio dele vim a tomar conhecimento da arte de vanguarda na Europa (da literatura e também das artes plásticas e da música), como me vi sempre estimulado pela aura de simpatia que me vinha do grupo paulista.
Com a morte do pai e sua transferência para o morro do Curvelo, o poeta confessa-se mais maduro. Quando meu pai era vivo, a morte ou o que quer que me pudesse acontecer não me preocupava, porque eu sabia que pondo a minha mão na sua, nada haveria que eu não tivesse a coragem de enfrentar. Sem ele eu me sentia definitivamente só. E era só que teria de enfrentar a pobreza e a morte.
Nesse período (1920-1933), escreve três livros de poesias - O Ritmo Dissoluto, Libertinagem e Estrela da Manhã — e um de prosa — Crônicas da Província do Brasil O Ritmo Dissoluto (1924) é editado pela Revista da Língua Portuguesa. Causou grande e divertida surpresa nos arraiais modernistas aparecer eu, autor de um poema já publicado (“Poética”), onde primitivamente havia este verso: Abaixo a Revista da Língua Portuguesa, aparecer eu da noite para o dia editado por essa mesma revista. (...) É verdade que o verso irreverente foi suprimido, mas para ser substituído pelo que lá está:
Abaixo os puristas!
O livro apresenta-se como elemento de transição para a maturidade poética. Versos livres e metrificados encontram-se harmoniosamente como para deixarem rolar os sentimentos e idéias do autor. Mas a liberdade de movimentos surge e atinge o auge em Libertinagem, contendo poemas escritos entre 1924 e 1930, anos de força e calor do movimento modernista. Empolgado pela libertação, escreve aí alguns de seus mais famosos poemas, destacando-se “Dialeto Brasileiro”, paródias como de Bocage, Castro Alves, Macedo, entre outros.
“Traduzi” para moderno o famoso soneto de Bocage que começa pelo Se é doce no recente, ameno estio. Eram assim os quartetos:
Doçura de, no estio recente
Ver a manhã toucar-se de flores
E o rio
mole
queixoso
Deslizar, lambendo areias e verduras;
Doçura de ouvir as aves
Em desafio de amores
cantos
risadas
Na ramagem do pomar sombrio.
Como se vê, eu estava mas era assinalando maliciosamente certas maneiras de dizer, certas disposições tipográficas que já se tinham tornado clichês modernistas.
ou ainda do autor de A Moreninha que, no original, é:
Mulher, irmã, escuta—me: não ames.
Quando a teus pés um homem terno e curvo
Jurar amor, chorar pranto de sangue.
Não creias, não, mulher: ele te engana!
As lágrimas são galas da mentira
E o juramento manto da perfídia.
e que na “tradução” ficou:
Teresa, se algum sujeito bancar o sentimental em cima de você
E te jurar uma paixão do tamanho de um bonde
Se ele chorar
Se ele se ajoelhar
Se ele se rasgar todo
Não acredita não Teresa
É lágrima de cinema
É tapeação
Mentira
Cai fora.
Estrela da Manhã e Lira dos Cinqüenta Anos contêm poesias de diferentes épocas, desde o morro do Curvelo até os feitos no quarto em Moraes e Vale, rua no centro da Lapa. A tristeza dessa mudança exprimi-a numa quadra sibilina intitulada “O Amor, a Poesia, as Viagens”. E um poema ininteligível nos seus elementos, porque só eu possuo a chave que o explica; mas que a explicação não é necessária para que pessoas dotadas de sensibilidade poética penetrem a intenção essencial dos versos, se prova pelo comentário da nossa grande Cecília Meirelles, que os qualificou de “pura lágrima”. Aproveito a ocasião para jurar que jamais fiz um poema ou verso ininteligível para me fingir de profundo sob a especiosa capa de hermetismo. Só não fui claro quando não pude — fosse por deficiência ou impropriedade de linguagem, fosse por discrição.
Em 1940, concorre a uma cadeira na ABL, e Eleito, me vi em apuros para escrever o elogio do meu antecessor, cuja obra jamais me havia atraído. Do patrono, Júlio Ribeiro, conhecia A Carne, lida na adolescência, e a fama de gramático. A edição de suas Poesias Completas ainda inclui outros volumes: Belo Belo, Opus 10 e Estrela da Tarde. A editora José Olympio publicou-os com o título de Estrela da Vida Inteira.
Ao encerrar o Itinerário de Pasárgada, Manuel Bandeira faz uma breve e melancólica retrospectiva, assentando que o convívio com a idéia de morte é repousante, fazendo dela a sua companheira e imbuindo a poesia de profundo sentimento de solidão.
Olhemos agora para trás. Quando caí doente em 1904, fiquei certo de morrer dentro de pouco tempo: a tuberculose era ainda a “moléstia que não perdoa”. Mas fui vivendo, morre-não-morre, e em 1914 o Dr. Bodmer, médico-chefe do sanatório de Clavadel, tendo-lhe eu perguntado quantos anos me restariam de vida me respondeu assim: O Sr. tem lesões teoricamente incompatíveis com a vida; no entanto está sem bacilos, come bem, dorme bem, não apresenta, em suma, nenhum sintoma alarmante. Pode viver cinco, dez, quinze anos... Quem poderá dizer?. Continuei esperando a morte para qualquer momento, vivendo sempre como que provisoriamente. Nos primeiros anos da doença me amargurava muito a idéia de morrer sem ter feito nada; depois a forçada ociosidade. Já disse como publiquei A Cinza das Horas para de certo modo iludir o meu sentimento de vazia inutilidade. Este só começou a se dissipar quando fui tomando consciência da ação dos meus versas sobre amigos e principalmente sobre desconhecidos. Uma tarde voltei para casa seriamente impressionado de ter ouvido, na Livraria José Olímpio, Raquel de Queirós me dizer:
Você não sabe o que a sua poesia representa para nós. Foi a força de testemunhos como esse, às vezes de gente quase de todo alheia à literatura, que principiei a aceitar sem amargura o meu destino. Hoje na verdade me sinto em paz com ele e pronto para o que der e vier.
Otto Maria Carpeaux, escrevendo uma vez a meu respeito, disse, com certeira intuição, que no livro ideal em que ele estruturaria a ordem da minha poesia, esta partia da vida inteira que poderia ter sido e que não foi para outra vida que viera ficando cada vez mais cheia de tudo.
De fato esse é o sentido profundo da “Canção do vento e da minha vida”. De fato cheguei ao apaziguamento das minhas insatisfações e das minhas revoltas pela descoberta de ter levado à angústia de muitos uma palavra fraterna. Agora a morte pode vir — essa morte que espero desde os dezoito anos; tenho a impressão que ela encontrará, como em “Consoada” está dito,
....................a casa limpa,
A mesa posta,
Com cada coisa em seu lugar.
Em outubro de
LIBERTINAGEM
O volume contém 38 pequenos poemas representativos de diferentes momentos da vida poética do autor, mas que podem ser agrupados devido a uma recorrência a certos tipos de tema. Inicia o volume o poema “Não Sei Dançar”, em que o poeta se embebe de uma alegria ilusória e passageira para tentar fugir de sua triste sina:
Sim, já perdi pai, mãe, irmãos.
Perdi a saúde também.
E por isso que sinto como ninguém o ritmo do jazz-band.
A referência musical deixa transparecer a cadência que será constante em sua obra: o ritmo poético como pano de fundo para o relato do que existe de mais interior e essencialmente biográfico do poeta.
Segue-se “Anjo da Guarda”, singela homenagem que o poeta faz à irmã morta.
Na mesma linha autobiográfica, Manuel Bandeira redige “Pneumotórax”, em que trata a própria doença (tuberculose) com irreverência, traduzida com frases cortantes, vazadas com o humor que beira o sarcástico:
— O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
— Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
— Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.
Em “Porquinho da Índia”, “Andorinha”, “O Último Poema”, a caracterização autobiográfica é conduzida para recordações da infância, sempre tratada com melancólica proximidade; são relatadas as reminiscências mais longínquas do poeta, que refletem a amargura de perceber-se contemplando o final de uma vida poética:
Assim eu quereria o meu último poema
Que fosse terno dizendo as coisas mais simples e menos
[intencionais
Que fosse ardente como um soluço sem lágrimas
Que tivesse a beleza das flores quase sem perfume
A pureza da chama em que se consomem os diamantes
[mais límpidos
A paixão dos suicidas que se matam sem explicação.
Caracteriza a poesia de Manuel Bandeira a forma simples e singela de repassar para o leitor o tom pessoal, o envolvimento sentimental, a amargura e a melancolia; transmite a sensação de uma vida vazia, muito bem definida em alguns versos como “A vida inteira que podia ter sido e que não foi” (“Pneumotórax”), ou nos quartetos de “Poema de Finados”, em que a sensação de morte que o poeta experimenta está associada à sensação de perda dos parentes próximos:
Amanhã é dia dos mortos
Vai ao cemitério. Vai
E procura entre as sepulturas
A sepultura de meu pai.
Leva três rosas bem bonitas.
Ajoelha e reza uma oração.
Não pelo pai, mas pelo filho:
O filho tem mais precisão.
O que resta de mim na vida
E a amargura do que sofri.
Pois nada quero, nada espero.
E em verdade estou morto ali.
Qual é então o refúgio do poeta? A ele resta fugir, com o bom sentimentalismo herdado dos românticos, para um mundo criado pela sua imaginação. Embora modernista, Manuel Bandeira aproxima-se da cosmovisão romântica não só pelo caráter pessoal, melancólico e sentimental de sua poesia, como também pela simplicidade da composição alicerçada na busca do verso melódico e popular, com preferência pelos redondilhos maiores, tão bem ilustrados por “Vou-me Embora pra Pasárgada”, como se vê nas estrofes transcritas a seguir:
E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tornarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada
E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.
O mesmo comportamento poético é notado em versos extremamente líricos como em “Profundamente”, em que são confundidos os tempos em função da emotividade. Aí surgem os avós, a saudade do passado identificada pelas vozes de um tempo remoto, encarcerados na memória dos seus seis anos. Dessa evocação surgem personagens como Totônio Rodrigues, Rosa, Tomásia.
Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci
Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?
— Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.
Uma segunda linha poética a ser apontada em Libertinagem é realçada pela atenção que o poeta dá às coisas que podem ser captadas pela observação. Voltando-se para o cotidiano, preocupa-se em provar que a poesia nasce do encontro do poeta com o mundo em que vive. A poesia nasce a qualquer momento, do contato com as praças públicas ou com os homens nas ruas, da vivência brasileira, do jeitão nosso de ser. Como apregoavam os modernistas, a poesia nasce a qualquer momento, é concebida pelo encontro com situações mais diversas do cotidiano. A beleza se esconde nos fatos mais banais, a ternura está nas coisas mais simples, como são exemplos “Pensão Familiar”, “Major”, “Poema Tirado de uma Notícia de Jornal”, “Namorados” e “Camelôs”, de onde se extraiu o trecho a seguir.
Abençoado seja o camelô dos brinquedos de tostão:
O que vende balõezinhos de cor
O macaquinho que trepa no coqueiro
O cachorrinho que bate com o rabo
Os homenzinhos que jogam box
A perereca verde que de repente dá um pulo que engraçado
E as canetinhas-tinteiro que jamais escreverão coisa alguma
Alegria das calçadas.
Em poemas mais intelectualizados como “O Cacto”, associa a uma aparente simplicidade um trabalho que envolve conceitos e conhecimentos da história da arte e da mitologia, até se envolver na dura realidade do seco Nordeste, evocado a partir de sua árvore-símbolo. Ao cacto, que submerge ao impacto da também grande e agressiva imagem do tufão, mistura-se a ferocidade do turbilhão da cidade, como se o cacto pudesse por si só provar a força da paisagem áspera e intratável do Nordeste:
Aquele cacto lembrava os gestos desesperados da estatuária:
Laocoonte constrangido pelas serpentes,
Ugolino e os filhos esfaimados.
Evocava também o seco Nordeste, carnaubais, caatingas...
Era enorme, mesmo para esta terra de ferocidades
excepcionais.
Um dia um tufão furibundo abateu-o pela raiz.
O cacto tombou atravessado na rua,
Quebrou os beirais do casario fronteiro,
Impediu o trânsito de bondes, automóveis, carroças,
Arrebentou os cabos elétricos e durante vinte e quatro horas
[privou a cidade de iluminação e energia:
— Era belo, áspero, intratável.
Outra vertente temática que aparece em Libertinagem é a composição de versos que expõem o compromisso do escritor com a estética modernista. Nesse sentido, produz uma espécie de profissão de fé em “Poética”, reduzindo sua pretensão poética ao compromisso de buscar liberdade de criação:
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare
Encerra o poema o famoso verso “— Não quero mais saber do lirismo que não é libertação” — desabafo de um oprimido que diz não ao formalismo parnasiano, à linguagem culta, ao lirismo comedido e se propõe a buscar uma língua brasileira, o ritmo livre, o tema aberto.
Essa mesma língua brasileira é proposta em “Evocação do Recife”:
E o vendedor de roletes de cana
O de amendoim
que se chamava midubim e não era torrado era cozido
Me lembro de todos os pregões
Ovos frescos e baratos
Dez ovos por uma pataca
Foi há tanto tempo...
A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros
Vinha da boca do povo na língua errada do povo
Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil
Ao passo que nós
O que fazemos
É macaquear
A sintaxe lusíada
Ainda em “Evocação do Recife” é possível perceber o apego do poeta em relação à paisagem que está próxima, quer pela saudade (no caso do Recife), quer pela proximidade física, como em “Mangue”:
Mangue mais Veneza americana do que o Recife
Cargueiros atracados nas docas do Canal Grande
O Morro do Pinto morre de espanto
Passam estivadores de torso nu suando facas de ponta
Café baixo
Trapiches alfandegados
Catraias de abacaxis e de bananas
A Light fazendo crusvaldina com resíduos de coque
Ou ainda em “Belém do Pará”:
(...) Belém do Pará onde as avenidas se chamam Estradas:
Estrada de São Jerônimo
Estrada de Nazaré
Onde a banal Avenida Marechal Deodoro da Fonseca de
[todas as cidades do Brasil
Se chama liricamente
Brasileiramente
Estrada do Generalíssimo Deodoro
Bembelelém
Viva Belém
Nortista gostosa
Eu te quero bem.
QUADRO DE ALGUMAS CARACTERÍSTICAS DOS POEMAS DE LIBERTINAGEM
| 1 | Não Sei Dançar | autobiografia, melancolia e consciência da miscigenação |
| 2 | O Anjo da Guarda | memorialismo, lirismo e evasão |
| 3 | Mulheres | a poesia do cotidiano, evocação da infância e leve erotismo |
| 4 | Pensão Familiar | A poesia do cotidiano e leve ironia |
| 5 | Camelôs | A poesia do cotidiano, evasão e evocação da infância |
| 6 | O Cacto | A poesia do cotidiano, mitologia, metalinguagem e reflexão |
| 7 | Pneumotórax | Autobiografia, humor, melancolia e antirilismo |
| 8 | Comentário Musical | A poesia do cotidiano e epifania |
| 9 | Poética | Metalinguagem, a busca da estética e a força de um manifesto |
| 10 | Chambre Vide | A poesia do cotidiano e reflexão |
| 11 | Bonheur Lyrique | Autobiografia, melancolia e lirismo |
| 12 | Porquinho-da-Índia | Evocação da Infância, lirismo, leve ironia e epifania |
| 13 | Mangue | Memorialismo, aspectos da cultura brasileira e lirismo |
| 14 | Belém do Pará | Memorialismo, lirismo e exaltação da pátria |
| 15 | Evocação Recife | Memorialismo, lirismo, autobiografia e exaltação da pátria |
| 16 | Poema Tirado de uma Notícia do Jornal | A poesia do cotidiano, observação e ironia |
| 17 | Teresa | Ironia, lirismo, epifania e intertextualidade |
| 18 | Lenda Brasileira | Mitologia, epifania, humor e evasão |
| 19 | A Virgem Maria | Autobiografia, epifania, evasão e morte |
| 20 | Oração do Saco de Magaratiba | Autobiografia e melancolia |
| 21 | O Major | A poesia do cotidiano e morte |
| 22 | Cunhatã | A poesia do cotidiano, lirismo e aspectos do Brasil |
| 23 | Oração a Teresinha do Menino Jesus | Autobiografia, melancolia e evasão |
| 24 | Andorinha | Autobiografia, pessimismo e ironia |
| 25 | Profundamente | Metalinguagem, memorialismo, lirismo e morte |
| 26 | Madrigal Tão Engraçadinho | Ironia, a poesia do cotidiano, autobiografia e intertextualidade |
| 27 | Noturno da Parada Amorim | Epifania e evasão |
| 28 | Na boca | Autobiografia e pessimismo |
| 29 | Macumba de Pai Zé | Evasão, morte e aspectos do Brasil |
| 30 | Noturno da Rua da Lapa | Autobiografia, melancolia, epifania e experimentalismo |
| 31 | Cabedelo | Evasão, melancolia, lirismo e intertextualidade |
| 32 | Irene no Céu | Evasão, humor e aspectos do Brasil |
| 33 | Palinódia | Epifania, ludismo e experimentalismo |
| 34 | Namorados | Coloquialismo, ironia e bom humor |
| 35 | Vou-me Embora pra Pasárgada | Evasão, metalinguagem, epifania, lirismo e autobiografia |
| 36 | O Impossível Carinho | Metalinguagem, evasão, lirismo e evocação da infância |
| 37 | Poema de Finados | Autobiografia, evasão, pessimismo e morte |
| 38 | O Último Poema | Autobiografia, evasão, morte, metalinguagem e melancolia |
Libertinagem
Manuel Bandeira
01) Não sei dançar
02) O anjo da guarda
03) Mulheres
04) Pensão familiar
05) Camelôs
06) O Cacto
07) Pneumotórax
08) Comentário Musical
09) Poética
10) Chambre vide
11) Bonheur lyrique
12) Porquinho-da-índia
13) Mangue
14) Belém do Pará
15) Evocação do Recife
16) Poema tirado de uma notícia de jornal
17) Teresa
18) Lenda brasileira
19) A Virgem Maria
20) Oração no saco de mangaratiba
21) O Major
22) Cunhantã
23) Oração a Teresinha do menino Jesus
24) Andorinha
25) Profundamente
26) Madrigal tão engraçadinho
27) Noturno da parada amorim
28) Na Boca
29) Macumba do pai Zusé
30) Noturno da Rua da Lapa
31) Cabedelo
32) Irene no céu
33) Palinódia
34) Namorados
35) Vou-me embora pra Pasárgada
36) O impossível carinho
37) Poema de finados
38) O último poema
NÃO SEI DANÇAR
Uns tomam éter, outros cocaína.
Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria.
Tenho todos os motivos menos um de ser triste.
Mas o cálculo das probabilidades é uma pilhéria...
Abaixo Amiel!
E nunca lerei o diário de Maria Bashkirtseff.
Sim, já perdi pai, mãe, irmãos.
Perdi a saúde também.
É por isso que eu sinto como ninguém o ritmo do jazz-band.
Uns tomam éter, outros cocaína.
Eu tomo alegria!
Eis aí por que vim assistir a este baile de terça-feira gorda.
Mistura muito excelente de chás...
Esta foi açafata...
- Não, foi arrumadeira.
E está dançando com o ex- prefeito municipal:
Tão Brasil!
De fato este salão de sangues misturados parece o Brasil...
Há até a fração incipiente amarela
Na figura de um japonês.
O japonês também dança maxixe:
Acugêlê banzai!
A filha do usineiro de Campos
Olha com repugnância
Pra crioula imoral.
No entanto o que faz a indecência da outra
É dengue nos olhos maravilhosos da moça.
E aquele cair de ombros...
Mas ela não sabe...
Tão Brasil!
Ninguém se lembra de política...
Nem dos oito mil quilômetros de costa...
O algodão de Seridó é o melhor do mundo?... Que me
[importa?
Não há malária nem moléstia de Chagas nem ancilós-
[tomos.
A sereia sibila e o ganzá do jazz-band batuca.
Eu tomo alegria!
Petrópolis, 1925
O ANJO DA GUARDA
Quando minha irmã morreu,
(Devia ter sido assim)
Um anjo moreno, violento e bom,
- brasileiro
Veio ficar ao pé de mim.
O meu anjo da guarda sorriu
E voltou pra junto do Senhor.
MULHERES
Como as mulheres são lindas!
Inútil pensar que é do vestido...
E depois não há só as bonitas:
Há também as simpáticas.
E as feias, certas feias em cujos olhos eu vejo isto:
Uma menininha que é batida e pisada e nunca sai da cozinha.
Como deve ser bom gostar de uma feia!
O meu amor porém não tem bondade alguma,
É fraco! fraco!
Meu Deus, eu amo como as criancinhas...
És linda como uma história da carochinha...
E eu preciso de ti como precisava de mamãe e papai
(No tempo em que pensava que os ladrões moravam no
[morro atrás de casa e tinham cara de pau).
Pensão Familiar
Jardim da pensãozinha burguesa.
Gatos espapaçados ao sol.
A tiririca sitia os canteiros chatos.
O sol acaba de crestar as boninas que murcharam.
Os girassóis
amarelo!
resistem.
E as dálias, rechonchudas, plebéias, dominicais.
Um gatinho faz pipi.
Com gestos de garçom de restaurant-Palace
Encobre cuidadosamente a mijadinha.
Sai vibrando com elegância a patinha direita:
- É a única criatura fina na pensãozinha burguesa.
Petrópolis, 1925
CamelÔs
Abençoado seja o camelô dos brinquedos de tostão:
O que vende balõeszinhos de cor
O macaquinho que trepa no coqueiro
O cachorrinho que bate com o rabo
Os homenzinhos que jogam boxe
A perereca verde que de repente dá um pulo que engraçado
E as canetinhas-tinteiro que jamais escreverão coisa alguma.
Alegria das calçadas
Uns famam pelos cotovelos:
- "O cavalheiro chega em casa e diz: Meu filho, vai buscar
[um pedaço de banana para eu acender
[o charuto. Naturalmente o menindo pen-
[sará: Papai está malu..."
Outros, coitados, têm a língua atada.
Todos porém sabem mexer nos cordéis com o tino ingênuo
[de dimiurgos de inutilidades.
E ensinam no tumulto das ruas os mitos heróicos da meni-
[nice...
Pneumotórax
Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.
Mandou chamar o médico:
- Diga trinta e três.
- Trinta e três... trinta e três... trinta e três...
- Respire.
.............................................................
- O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o
[pulmão direito infiltrado.
- Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
- Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.
Comentário Musical
O meu quarto de dormir a cavaleiro da entrada da barra.
Entram por ele dentro
Os ares oceânicos,
Maresias atlânticas:
São Paulo de Luanda, Figueira da Foz, praias gaélicas da Ir-
[landa...
O comentário musical da paisagem só podia ser o sussurro
[sinfônico da vida civil.
No entanto o que ouço neste momento é um silvo agudo de
[sagüim:
Minha vizinha de baixo comprou um sagüim.
Poética
Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expe-
[diente protocolo e manifestações de apreço
[ao Sr. diretor
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário
[o cunho vernáculo de um vocábulo
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os enumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítco
Do lirismo que capitula ao que quer que seja for a de si
[mesmo.
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante
[exemplar com cem modelos de cartas
[e as diferentes maneiras de agradar
[às mulheres, etc.
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare
- Não quero mais saber do lirismo que não é libertação.
Chambre Vide
Petit chat blanc et gris
Reste encore dans la chambre
La nuit est si noire dehors
Et le silence pèse
Ce soir je crains la nuit
Petit chat frère du silence
Reste encore
Reste auprès de moi
Petit chat blanc et gris
Petit chat
La nuit pèse
Il n'y a pas de papillons de nuit
Où sont donc ces bêtes?
Les mouches dorment sur le fil de l'électricité
Je suis trop seul vivant dans cette chambre
Petit chat frère du silence
Reste à mes côtés
Car il faut que je sente la vie auprès de moi
Et c'est toi qui fais que la chambre n'est pas vide
Petit chat blanc et gris
Reste dans la chambre
Eveillé minutieux et lucide
Petit chat.
Petrópolis, 1925
Bonheur Lyrique
Coeur de phtisique
O mon coeur lyrique
Ton bonheur ne peut pas être comme celui des autres
Il faut que tu te fabriques
Un bonheur unique
Un bonheur qui soit comme le piteus lustucru en chiffon
[d'une enfant pauvre
- Fait par elle-même.
Porquinho-da-Índia
Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele pra sala
Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos
Ele não gostava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas...
- O meu porquinho-da-índia foi minha primeira namo-
[rada.
Mangue
Mangue mais Veneza americana do que o Recife
Cargueiros atracados nas docas do Canal Grande
O Morro do Pinto morre de espanto
Passam estivadores de torso nu suando facas de ponta
Café baixo
Trapiches alfandegados
Catraias de abacaxis e de bananas
A Light fazendo crusvaldina com resíduos de coque
Há macumbas no piche
Eh cagira mia pai
Eh cagira
E o luar é uma coisa só
Houve tempo em que a Cidade Nova era mais subúrbio do
[que todas as Meritis da Baixada
Pátria amada idolatrada de empregadinhos de repartições
[públicas
Gente que vive porque é teimosa
Cartomantes da Rua Carmo Neto
Cirurgiões-dentistas com raízes gregas nas tabuletas avul-
[sivas
O Senador Eusébio e o Visconde de Itaúna já se olhavam
[com rancor
(Por isso
Entre os dois
Dom João VI plantou quatro renques de palmeiras impe-
[riais)
Casinhas tão térreas onde tantas vezes meu Deus fui funcio-
[nário público casado com mulher feia
[e morri de tuberculose pulmonar
Muitas palmeiras se suicidaram porque não viviam num pín-
[caro azulado.
Era aqui que choramingavam os primeiros choros dos carna-
[vais cariocas
Sambas da Tia Ciata
Cadê mais Tia Ciata
Tavez
Ensaiando cheganças para o Natal
O menino Jesus - Quem sois tu?
O preto - Eu sou aquele preto principá do centro do
[cafange do fundo do rebolo. Quem sois tu?
O menino Jesus - Eu sou o fio da Virge Maria.
O preto - Entonces como é fio dessa senhora, obedeço.
O menino Jesus - Entonces cuma você obedece, reze
[aqui um terceto pr'esse exerço vê.
O Mangue era simplesinho
Mas as inundações dos solstícios de verão
Trouxeram para Mata-Porcos todas as uiaras da Serra da Ca-
[rioca
Uiaras do Trapicheiro
Do Maracanã
Do Rio Joana
E vieram também sereias de além-mar jogadas pela ressada
[nos aterrados da Gamboa
Hoje há transatlânticos atracados nas docas do Canal Grande
O Senador e o Visconde arranjaram capangas
Hoje se fala numa porção de ruas em que dantes ninguém
[acreditava
E há partidas para o Mangue
Com choros de cavaquinho, pandeiro e reco-reco
És mulher
És mulher e mais nada
OFERTA
Mangue mais Veneza americana do que o Recife
Meriti meretriz
Mange enfim verdadeiramente Cidade Nova
Com transatlânticos atracados nas docas do Canal Grande
Linda como Juiz de Fora.
Belém do Pará
Bembelelém
Viva Belém!
Belém do Pará porto moderno integrado na equatorial
Beleza eterna da paisagem
Bembelelém
Viva Belém!
Cidade pomar
(Obrigou a polícia a classificar um tipo novo de delinqüente:
O apedrejador de mangueiras.)
Bembelelém
Viva Belém!
Belém do Pará onde as avenidas se chamam Estradas:
Estrada de São Jerônimo
Estrada de Nazaré
Onde a banal Avenida Marechal Deodoro da Fonseca de to-
[das as cidades do Brasil
Se chama liricamente
Brasileiramente
Estrada do Generalíssimo Deodoro
Bembelelém
Viva Belém!
Nortista gostosa
Eu te quero bem.
Terra da castanha
Terra da borracha
Terra de bribá bacuri sapoti
Terra de fala cheia de nome indígena
Que a gente não sabe se é de fruta pé de pau ou ave de pluma-
[gem bonita.
Nortista gostosa
Eu te quero bem.
Me obrigarás a novas saudades
Nunca mais me esquecerei do teu Largo da Sé
Com a fé maciça das duas maravilhosas igrejas barrocas
E o renque ajoelhado de sobradinhos coloniais tão boniti-
[nhos
Nunca mais me esquecerei
Das velas encarnadas
Verdes
Azuis
Da doca de Ver-o-Peso
Nunca mais
E foi pra me consolar mais tarde
Que inventei esta cantiga:
Bembelelém
Viva Belém!
Nortista gostosa
Eu te quero bem.
Belém, 1928
Evocação do Recife
Recife
Não a Veneza americana
Não a Mauritsstad dos armadores das Índias Ocidentais
Não o Recife dos Mascates
Nem mesmo o Recife que aprendi a amar depois -
Recife das revoluções libertárias
Mas o Recife sem história nem literatura
Recife sem mais nada
Recife da minha infância
A Rua da União onde eu brincava de chicote-queimado e
[partia as vidraças da casa de Dona Aninha Viegas
Totônio Rodrigues era muito velho e botava o pincenê na
[ponta do nariz
Depois do jantar as famílias tomavam a calçada com cadei-
[ras, mexericos, namoros, risadas
A gente brincava no meio da rua
Os meninos gritavam:
Coelho sai!
Não sai!
A distância as vozes macias das meninas politonavam:
Roseira dá-me uma rosa
Craveiro dá-me um botão
(Dessas rosas muita rosa
Terá morrido em botão...)
De repente
nos longes da noite
um sino
Uma pessoa grande dizia:
Fogo
Outra contrariava: São José!
Totônio Rodrigues achava sempre que era são José.
Os homens punham o chapéu saíam fumando
E eu tinha raiva de ser menino porque não podia ir ver o fogo.
Rua da União...
Como eram lindos os nomes das ruas da minha infância
Rua do Sol
(Tenho medo que hoje se chame do Dr. Fulano de Tal)
Atrás de casa ficava a Rua da Saudade...
...onde se ia fumar escondido
Do lado de lá era o cais da Rua da Aurora...
...onde se ia pescar escondido
Capiberibe
- Capibaribe
Lá longe o sertãozinho de Caxangá
Banheiros de palha
Um dia eu vi uma moça nuinha no banho
Fiquei parado o coração batendo
Ela se riu
Foi o meu primeiro alumbramento
Cheia! As cheias! Barro boi morto árvores destroços redo-
[moinho sumiu
E nos pegões da ponte do trem de ferro os caboclos destemi-
[dos em jangadas de bananeiras
Novenas
Cavalhadas
E eu me deitei no colo da menina e ela começou a passar a mão
[nos meus cabelos
Capiberibe
- Capibaribe
Rua da União onde todas as tardes passava a preta das bana-
[nas com o xale vistoso de pano da Costa
E o vendedor de roletes de cana
O de amendoim
que se chamava midubim e não era torrado era
[cozido
Me lembro de todos os pregões:
Ovos frescos e baratos
Dez ovos por uma pataca
Foi há muito tempo...
A vida não me chegava pelos jornais nem pelos livros
Vinha da boca do povo na língua errada do povo
Língua certa do povo
Porque ele é que fala gostoso o português do Brasil
Ao passo que nós
O que fazemos
É macaquear
A sintaxe lusíada
A vida com uma porção de coisas que eu não entendia bem
Terras que não sabia onde ficavam
Recife...
Rua da União...
A casa de meu avô...
Nunca pensei que ela acabasse!
Tudo lá parecia impregnado de eternidade
Recife...
Meu avô morto.
Recife morto, Recife bom, Recife brasileiro como a casa de
[meu avô.
Rio, 1925
Poema Tirado de uma Notícia de Jornal
João Gostoso era carregador de feira livre e morava no mor-
[ro da Babilônia num barracão sem número.
Uma noite ele chegou no bar Vinte de Novembro
Bebeu
Cantou
Dançou
Depois se atirou na lagoa Rodrigo de Freitas e morreu afo-
[gado.
Teresa
A primeira vez que vi Teresa
Achei que ela tinha pernas estúpidas
Achei também que a cara parecia uma perna
Quando vi Teresa de novo
Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do
[corpo
(Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o res-
[to do corpo nascesse)
Da terceira vez não vi mais nada
Os céus se misturaram com a terra
E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas.
Lenda Brasileira
A moita buliu. Bentinho Jararaca levou a arma à cara: o que
saiu do mato foi o Veado Branco! Bentinho ficou pregado no
chão. Quis puxar o gatilho e não pôde.
- Deus me perdoe!
Mas o Cussaruim veio vindo, veio vindo, parou junto do
caçador e começou a comer devagarinho o cano da espingarda.
A Virgem Maria
O oficial de registro civil, o coletor de impostos, o mordomo
[da Santa Casa e o administrador
[do cemitério de São João Batista
Cavaram com enxadas
Com pás
Com as unhas
Com os dentes
Cavaram uma voca mais funca que o meu suspiro de re-
[núnica
Depois me botaram lá dentro
E puseram por cima
As Tábuas da Lei
Mas de lá de dentro do fundo da treva do chão da cova
Eu ouvi a vozinha da Virgem Maria
Dizer que fazia sol lá fora
Dizer i n s i s t e n t e m e n t e
Que fazia sol lá fora.
Oração no saco de Mangaratiba
Nossa Senhora me dê paciência
Para estes mares para esta vida!
Me dê paciência para que eu não caia
Pra que eu não pare nesta existência
Tão mal cumprida tão mais comprida
Do que a restinga de Marambaia!...
1926
O Major
O major morreu.
Reformado.
Veterano da Guerra do Paraguai.
Herói da ponte do Itororó.
Não quis honras militares.
Não quis discursos.
Apenas
À hora do enterro
O corneteiro de um batalhão de linha
Deu à boca do túmulo
O toque de silêncio.
Cunhantã
Vinha do Pará.
Chamava Siquê.
Quatro anos. Escurinha. O riso gutural da raça.
Piá branca nenhuma corria mais do que ela.
Tinha uma cicatriz no meio da testa:
- Que foi isto, Siquê?
Com voz de detrás da garganta, a boquinha tuíra:
- Minha mãe (a madrasta) estava costurando
Disse vai ver se tem fogo
Eu soprei eu soprei eu soprei não vi fogo
Aí ela se levantou e esfregou com minha cabeça na brasa
Riu, riu, riu
Uêrêquitáua.
O ventilador era a coisa que roda.
Quando se machucava, dizia: Ai Zizus!
1927
Oração a Teresinha do Menino Jesus
Perdi o jeito de sofrer.
Ora essa.
Não sinto mais aquele gosto cabotino da tristeza.
Quero alegria! Me dá alegria,
Santa Teresa!
Santa Teresa não, Teresinha...
Teresinha... Teresinha...
Teresinha do Menino Jesus.
Me dá alegria!
Me dá a força de acreditar de novo
No
Pelo Sinal
Da Santa
Cruz!
Me dá alegria! Me dá alegria,
Santa Teresa!...
Santa Teresa não, Teresinha...
Teresinha do Menino Jesus.
Andorinha
Andorinha lá fora está dizendo:
- "Passei o dia à toa, à toa!"
Andorinha, andorinha, minha cantiga é mais triste!
Passei a vida à toa, à toa...
Profundamente
Quando ontem adormeci
Na noite de São João
Havia alegria e rumor
Vozes cantigas e risos
Ao pé das fogueiras acesas.
No meio da noite despertei
Não ouvi mais vozes nem risos
Apenas balões
Passavam errantes
Silenciosamente
Apenas de vez em quando
O ruído de um bonde
Cortava o silêncio
Como um túnel.
Onde estavam os que há pouco
Dançavam
Cantavam
E riam
Ao pé das fogueiras acesas?
- Estavam todos dormindo
Estavam todos deitados
Dormindo
Profundamente
*
Quando eu tinha seis anos
Não pude ver o fim da festa de São João
Porque adormeci
Hoje não ouço mais as vozes daquele tempo
Minha avó
Meu avô
Totônio Rodrigues
Tomásia
Rosa
Onde estão todos eles?
- Estão todos dormindo
Estão todos deitados
Dormindo
Profundamente.
Madrigal tão engraçadinho
Teresa, você é a coisa mais bonita que eu vi até hoje na minha
[vida, inclusive o porquinho-da-índia que
[me deram quando eu tinha seis anos.
Noturno da parada Amorim
O violoncelista estava a meio do Converto de Schumann
Subitamente o coronel ficou transportado e começou a gri-
[tar: - Je vois des anges! Je vois des anges!
[- E deixou-se escorregar sentado pela
[escada abaixo.
O telefone tilintou.
Alguém chamava?... Alguém pedia socorro?...
Mas do outro lado não vinha senão o rumor de um pranto
[desesperado!...
(Eram três horas.
Todas as agências postais estavam fechadas.
Dentro da noite a voz do coronel continuava a gritas: - Je
[vois des anges! Je vois des anges!)
Na Boca
Sempre tristíssimas estas cantigas de carnaval
Paixão
Ciúme
Dor daquilo que não se pode dizer
Felizmente existe o álcool na vida
E nos três dias de carnaval éter de lança-perfume
Quem me dera ser como o rapaz desvairado!
O ano passado ele parava diante das mulheres bonitas
E gritava pedindo o esguicho de cloretilo:
- Na boca! Na boca!
Umas davam-lhe as costas com repugnância.
Outras porém faziam-lhe a vontade.
Ainda existem mulheres bastante puras para fazer vontade
[aos viciados
Dorinha meu amor...
Se ela fosse bastante pura eu iria agora gritar-lhe como o ou-
[tro: - Na boca! Na boca!
Macumba do pai Zusé
Na macumba do encantado
Nego véio pai de santo fez mandinga
No palacete do Botafogo
Sangue de branca virou água
Foram vê estava morta!
NOTURNO DA RUA DA LAPA
A janela estava aberta. Para o que não sei, mas o que entrava era o vento dos lupanares, de mistura com o eco que se partia nas curvas cicloidais, e fragmentos do hino da bandeira.
Não posso atinar no que eu fazia: se meditava, se morria de espanto ou se vinha de muito longe.
Nesse momento (oh! po que precisamente nesse momento?...) é que penetrou no quarto o bicho que voava, o articulado implacável, implacável!
Compreendi desde logo não haver possibilidade alguma de evasão. Nascer de novo também não adiantava. - A bomba de flit! pensei comigo, é um inseto!
Quando o jacto fumigatório partiu, nada mudou em mim; os sinos da redenção continuaram em silêncio; nenhuma porta se abriu nem fechou. Mas o monstruoso animal FICOU MAIOR. Senti que ele não morreria nunca mais, nem sairia, conquanto não houvesse no aposento nenhum busto de Palas, nem na minhalma, o que é pior, a recordação persistente de alguma extinta Lenora.
CABEDELO
Viagem à roda do mundo
Numa casquinha de noz:
Estive em Cabedelo.
O macaco me ofereceu cocos.
Ó maninha, ó maninha,
Tu não estavas comigo!...
- Estavas?...
Comentários
O batalhador
Considerado um dos maiores expoentes da poesia moderna brasileira, principalmente pela simplicidade do seu estilo, e abordagem dos aspectos do cotidiano, em particular, pela a luta a favor da sobrevivência, já que a morte foi uma constante em sua prolongada vida para os moldes da época, pois a tuberculose no qual foi vitimado causou muitas mortes.
Com certeza, so consegui isto, por ter um espírito vigoroso.
Professor de Literatura Brasileira do Colégio Efetivo.