Síndrome de Spoan


Medicina


Spoan: uma nova doença


Uniões consangüíneas provocam uma forma desconhecida de deficiência em cidade do Nordeste


Marcos Pivetta, de Serrinha dos Pintos (RN)



Há quinze anos, Elenara Maria de Queiroz Moura estava grávida - e a cena de uma novela não lhe saía da cabeça. Um casal de primos queria ter filhos e procurara um ginecologista. Quando soube que os clientes eram parentes próximos, o doutor do folhetim televisivo fora taxativo: era melhor evitar a gravidez.

Casamentos consangüíneos apresentam maior risco de gerar crianças com alguma doença hereditária. Se queriam descendentes, era mais prudente adotar um, sentenciara o médico. Elenara, então com 20 anos, tinha motivos para se preocupar.

Era casada com José Moura Sobrinho, um primo em primeiro grau cinco anos mais velho. Ambos eram naturais de Serrinha dos Pintos, um município de 4.300 habitantes, distante 370 quilômetros a oeste de Natal, no Rio Grande do Norte, onde subir ao altar com um parente é um costume local. E tinham na família "deficientes", tios confinados a cadeiras de rodas devido a uma misteriosa doença que, paulatinamente, enrijece e enfraquece primeiro pernas e depois braços, além de afetar a postura em geral e, em menor intensidade, a visão e a fala.

Apesar dos temores, Isabela, a primogênita do casal, nasceu normal. "Fiquei aliviada e pensei que estava tudo bem", relembra Elenara. "Engravidei da minha segunda filha sem medo." Mas a história de Paulinha, a caçula de 10 anos, foi diferente.

A menina nasceu com a síndrome Spoan, uma doença neurodegenerativa recém-descoberta entre os habitantes da localidade potiguar e descrita em maio por pesquisadores do Centro de Estudos do Genoma Humano e do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP) num artigo publicado na revista norte-americana Annals of Neurology. Ainda não se sabe em qual gene está a mutação que causa a doença, mas os cientistas analisaram amostras de DNA de 74 moradores da cidade, entre doentes e sadios, e os resultados dos estudos indicam que o gene da Spoan se encontra numa região do cromossomo 11. O problema é que existem ao menos 143 genes nessa região, dos quais 96 são ativados em tecido nervoso. Ou seja, por ora, quase uma centena de genes são candidatos a causadores da doença.

"Mapeamos a região do gene, ou bairro onde ele se encontra", compara a geneticista Mayana Zatz, coordenadora dos trabalhos com a nova doença e do Centro de Estudos do Genoma Humano, um dos dez Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão (Cepid) financiados pela FAPESP. "Falta achar a casa, o gene ligado à síndrome." Com sorte, em um ou dois anos, a equipe da USP espera ter isolado o gene e identificado a mutação que provoca a Spoan. Assim que tiverem essas informações, os cientistas vão criar um teste pré-natal capaz de detectar a presença damutação em bebês ainda em gestação eidentificar osindivíduos heterozigotos para essa anomalia genética (pessoas saudáveis, mas que podem ter filhos com a doença).

"Até agora não se conhece nenhuma doença neurológica associada a genes dessa região do cromossomo 11", diz a aluna de doutorado Lucia Inês Macedo-Souza, encarregada de achar a "casa" onde se encontra a base molecular da Spoan.

Em inglês, Spoan significa Spastic Paraplegia, Optic Atrophy and Neuropathy, nome complicado para um quadro complexo. Para um "problema de família", no falar simples dos moradores de Serrinha. Até agora os cientistas identificaram 26 pessoas vivas com Spoan, das quais 17 são mulheres e 9 homens.

Todos os indivíduos afetados são brancos, caucasianos, provavelmente de ascendência portuguesa ou talvez holandesa, e originários dessa cidade serrana. A maioria ainda mora em sua terra natal e todos descendem de casais aparentados, de 19 uniões consangüíneas. "Examinamos pacientes de várias idades com a síndrome, dos 10 aos 63 anos", afirma a bióloga Silvana Santos, principal responsável pela descoberta da inédita patologia e bolsista de pós-doutorado da FAPESP.

"Pudemos ver a evolução da doença. Com o tempo, as pessoas se fecham como uma flor."Embora sem cura, a doença em si não é fatal e mantém intacta a capacidade de pensar dos doentes. Não provoca retardo mental, dor ou surdez.

Mas seus efeitos sobre a qualidade de vida dos afetados, que se tornam deficientes físicos, são devastadores. Sobretudo numa população rural e carente de serviços de saúde como a de Serrinha dos Pintos, que credita, de forma folclórica, a origem da nova doença a uma sífilis hereditária de um antigo e mulherengo ancestral que teria se espalhado pelo sangue da família (veja quadro na página 42). Ali não há serviço de fisioterapia para minimizar os problemas de postura decorrentes da paraplegia associada à doença e as vítimas da síndrome vivem apartadas do dia-a-dia, recolhidas ao interior de suas casas, totalmente dependentes dos cuidados de familiares.

Sem o devido acompanhamento médico, ninguém toma remédios para reduzir a rigidez e o enfraquecimento das pernas e braços. Os pés entortam para fora e a cabeça cai. Dos doentes conhecidos, apenas Paulinha não está em cadeira de rodas. Com a energia interminável que só as crianças parecem ter, a menina consegue se locomover com o auxílio de um andador com rodinhas.

No jargão da biologia molecular, a Spoan se classifica entre as doenças de herança autossômica recessiva. Homens e mulheres têm a mesma probabilidade de apresentar a patologia, a despeito de o número de casos conhecidos em Serrinha ser maior entre o sexo feminino. Uma pessoa só vai desenvolver Spoan se as duas cópias do ainda desconhecido gene associado à síndrome, uma vinda do pai e outra da mãe, carregarem a mutação que leva ao problema de saúde.

Portanto, os pais de um doente com Spoan são necessariamente heterozigotos. São portadores da mutação em apenas uma das duas cópias do gene, nunca nas duas, e não manifestam a síndrome. Mas podem transmiti-la para a prole, como atestam os pacientes de Serrinha.

Filhos de pais heterozigotos participam involuntariamente de uma roleta-russa biológica. Têm 25% de risco de se tornarem doentes, de herdarem as duas cópias do gene com a mutação; 50% de somente portarem a mutação em uma das cópias do gene, de serem heterozigotos; e 25% de não serem portadores de nenhuma alteração nas duas cópias do gene da Spoan,sendo saudáveis e incapazes depassar adiante a mutação. "Um em cada 250 habitantes de Serrinha tem a doença e um em cada nove é heterozigoto para essa condição", estima o neurologista Fernando Kok, que fez a descrição clínica e neurológica dos sintomas da Spoan.


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